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“Cid por onde passou se destacou. Qual familiar não se orgulharia?”, diz Lúcio

Por Gabriela de Palhano e Kelly Hekally

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Coordenador da campanha de Ciro Gomes (PSDB), o engenheiro civil Lúcio Gomes é o segundo mais velho entre os irmãos Ferreira Gomes, que vivem um impasse político no Ceará, por pertencerem a dois grupos diversos, que, de um lado, compõem a coalizão do governador Elmano de Freitas (PT) e de outro a oposição ao gestor.

Sétimo entrevistado do videocast Caráter, novo produto do O Estado, o também tucano Lúcio Gomes conversou após a gravação do programa com as jornalistas Gabriela de Palhano e Kelly Hekally, ocasião em que teceu críticas à segurança pública, defendeu austeridade num eventual governo de Ciro, afirmou ter boa relação com o irmão, senador Cid Gomes (PSB), apesar de ambos estarem em projetos opostos e elogiou o irmão.

“O Cid por onde passou se destacou. Se destacou como presidente da Assembleia [Legislativa do Ceará], deputado, prefeito de Sobral, governador e senador também. Qual o familiar não se orgulharia de vê-lo novamente continuando um trabalho que ele vem fazendo?”. Leia a íntegra.

O ESTADO: A possibilidade do Ciro vencer, para vocês, é uma torcida ou uma realidade?
LÚCIO GOMES: O Ciro não entraria numa parada, como se diz, dessa, muito difícil, sem ele ter uma boa perspectiva de vitória. Então, não trabalhamos com outra perspectiva. Estamos trabalhando sério. A elaboração do plano de governo é séria. A gente não vai prometer o que não vai poder fazer, mas já promete desde saída austeridade, seriedade com a escolha das pessoas […] Ninguém será indicado para cargo nenhum sem critério, sem analisar a vida da pessoa, apenas para resolver a vida. Não vamos colocar uma pessoa num lugar para depois a pessoa procurar fazer negociatas, fazer esquema […] A cada investimento que for feito, tem que ver qual é o retorno que dá para a comunidade, para as pessoas.

OE: Quais são os eventuais investimentos que não dão retorno?
LG: A questão do modelo. Primeiro é uma máquina [a do governo] muito inchada […] Se a gente for observar, parece que tem um ciclo de 20 anos. Em 1986, foi a eleição do Tarcísio Jereissati. Em 2006, vamos dizer que a máquina estava um pouco cansada. Tanto é que o Cid ganhou, já com discurso de oposição. Agora, nós estamos 20 anos depois do Cid. Nossa tese é esta: de que a máquina está cansada, viciada. A coisa foi crescendo. O Ciro lá atrás tinha 19 secretários e hoje tem 37 cargos de nível de secretário. As políticas acabam sendo relegadas a um segundo plano […] Antigamente, a gente sabia o nome do secretário […[ Me aperte aqui sob tortura para dizer o nome do secretário de educação. Eu não sei quem é […] Temos que perguntar se está tudo bem na segurança pública. Cada morte a menos tem que ser celebrada, mas, enquanto a gente não tiver zerado de morte, não dá para comemorar. Temos que perguntar para o dono do armazém, da mercearia, se ele está podendo exercer o trabalho dele sem ter que pagar alguma proteção para para a facção. A gente precisa saber se as pessoas estão podendo chegar em casa à noite com segurança, se as mães estão tranquilas quando os filhos vão para os colégios.

OE: O que vocês acham que falta na segurança para de fato dar uma solução?
LG: De começo é não admitir que isso é normal. Nós estamos no Brasil hoje num estágio muito pior do que o que era 20 anos atrás. Mas existe coisa pior. O Brasil não é ainda um estado de narcotráfico, como é o México, mas estamos caminhando para isso. Claro que tem que ter um trabalho de inteligência, tem que ter um trabalho de melhorar a performance das investigações. Hoje, no Ceará, praticamente, não se investiga muita coisa, como assassinatos. Há mortes em que não se sabe nem quais as armas que foram, mesmo tendo o projétil. Então, em primeiro lugar, a mudança de atitude. Não é uma tarefa fácil isso. Um governo bem intencionado que seja, que dê foco num problema, não vai conseguir resolver em 4 anos nem em 8. Mas a gente precisa pelo menos reverter essa curva. O Estado precisa apresentar alternativas. Geração de emprego, geração de oportunidades, formação. Hoje em dia, as nossas escolas precisam estar atualizadas. Nossas crianças têm que perseguir essa atualidade [tecnologias digitais], porque senão vai ficando para trás. 

OE: O senhor fala em austeridade, mas reduzir o número de secretarias não seria colocar em xeque a execução de políticas públicas e de gestão para setores importantes?
LG: O Brasil precisa ter mais seriedade para escolher as pessoas. A gente não pode escolher porque um é bonito ou porque um é vermelho, o outro é azul. No dia em que a gente [trabalhar] de fato, por indicadores, a coisa começa a mudar. Temos que ter metas, um plano de governo sério, sem estar prometendo Papai Noel na época de eleição. Eu não vou dizer que tem um padrão, mas pesquise, você vai ver que o Ceará é um dos estados que têm mais cargos em nível secretário. Já olhei talvez uns 10 ou 12, mas, dos que eu olhei, só tem um que ganha entre aspas do Ceará, o Maranhão, o estado mais pobre do país. A gente não precisa de tanto cargo para focar no necessário.

OE – O PSDB é um partido que, historicamente, defende princípios da administração privada dentro da administração pública. Caso Ciro vença, o que vocês pretendem implementar da iniciativa privada na gestão pública?
LG – A gente não pode pensar num governo como uma empresa privada somente. A gente vai ter que trazer claro as melhores práticas, mas têm tarefas que são do governo. A saúde pública, a educação pública, segurança pública: o Estado é um indutor de desenvolvimento. Ele não pode abrir mão desse papel. As nossas estradas. Infelizmente, o Ceará não tem muitas estradas, por exemplo, que poderiam ser pedagiadas. Quando eu era secretário, deixei pronto com edital aprovado no Tribunal de Contas do Estado [TCE] o que seria a primeira rodovia pedagiada do Ceará […] Seria uma concessão. Infelizmente engavetaram, não sei por quê. 

OE – Qual sua opinião, por exemplo, no caso da saúde especificamente? Com relação às OSs?
LG: Essa relação do Estado com essas organizações precisa ser transparente. A gente não pode simplesmente admitir a criação de uma organização dessa para desperdiçar recursos. Não se pode perder o foco no cidadão, no objetivo que é, no caso, a saúde. Fala-se tanto que o Estado tem hoje de 60 mil a 63 mil cirurgias eletivas, que estão na fila. Fico imaginando uma pessoa que já está sabendo que precisa fazer uma cirurgia e não consegue ser atendida, como é que pode viver. O Estado não pode perder o foco, e é por isso que ele precisa ser enxuto, para sobrar recurso para atender as pessoas. 

OE – Se seu irmão Ciro Gomes vencer as eleições, vamos ter governos de oposição no Estado e na Prefeitura. Diante do contexto, de troca de farpas, desde 2022, há possibilidade de pacificação dessa relação numa eventual vitória de Ciro?
LG: Essa relação não pode ser de forma pessoal. Ela tem que ser acima de projetos. Um projeto para alcançar o governo, mas também projeto para administrar depois. Então, desde que os projetos da Capital sejam bons para a comunidade dentro dessa linha de austeridade e de boa aplicação dos recursos, sem abrir um leque de promessas sem concluir as ações, acho que não haverá nenhum problema. Isso é uma relação institucional. Pelo menos da parte do Ciro, não acho que não haveria nenhum problema. Também acho que da parte do prefeito Evandro não.

OE – Faremos a mesma pergunta que fizemos aos seus irmãos Cid e Ciro: vocês se falam pelo WhatsApp, por ligação? Como é que é isso?
LG: A última vez em que falei com o Cid foi há pouco mais de um mês. Eu liguei para ele, no aniversário dele, 27 de abril. Ele não atendeu na hora, mas depois ele ligou retornando, dizendo que estava viajando. As nossas conversas são sempre muito respeitosas. No ano passado, eu estive no sítio dele, na Serra da Meruoca. Ele tem orgulho de mostrar as produções dele lá. Me dou muito bem, não tem dificuldade nenhuma.

OE: Politicamente vocês estão do lado de lados opostos, mas familiarmente mantêm vínculos: é isso?
LG: É. Hoje, para falar a verdade, esse vínculo de conviver diminuiu bastante. Não foi por nada não. Nem foi por causa de política. Porque a mamãe agregava muito. Ela chegava aqui e ficava na casa da minha irmã, ligando: “Meu filho, você não está vindo, o almoço? Hoje em dia, cada um tem filhos e netos. Políticos de mandato também… O Ivo [Gomes], por exemplo, está no Rio de Janeiro. A Lia [Gomes] vive também numa agenda de deputada. É uma vida muito dedicada, de se doar. Cada um tem sua vida e respeitosamente, e a gente vai tocando para frente.

OE: Você gostaria de ver o seu irmão Cid como candidato à reeleição?
LG: Bom… O Cid por onde passou se destacou. Se destacou como presidente da Assembleia [Legislativa do Ceará], deputado, prefeito de Sobral, governador e senador também. Qual o familiar não se orgulharia de vê-lo novamente continuando um trabalho que ele vem fazendo?

Fonte Matéria

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