O presidente Lula (PT) telefonou para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e disse que o mais recente tarifaço aplicado contra o Brasil é baseado em “alegações infundadas” envolvendo o Pix, o etanol brasileiro e importações com trabalho forçado.
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Segundo o comunicado do Planalto, a ligação desta sexta-feira (21) durou 1 hora e 20 minutos e ocorreu “em tom amistoso e cordial” entre Lula e Trump, que teria sugerido que os negociadores dos dois países voltassem a se reunir “o mais brevemente possível” —sem detalhar uma data.
A conversa ocorre em um momento em que autoridades do governo Lula, que é candidato à reeleição, têm repetido que temem interferência estrangeira dos EUA nas eleições brasileiras.
A gestão Trump é próxima do principal rival do petista, o candidato à presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro. Em julho, os EUA impuseram duas tarifas sobre o Brasil. Uma, com alíquota de 12,5%, tem por base acusações de falhas no controle de importação de produtos feitos com o uso do trabalho forçado. Outras dezenas de países também foram tarifados.
O Brasil já estava sujeito à aplicação de uma sobretaxa de 25%. A sanção, adotada após uma investigação sobre práticas comerciais supostamente injustas, atinge milhares de produtos brasileiros, mas isenta itens estratégicos para a pauta exportadora, como carne bovina e café.
Essa sobretaxa foi imposta com base numa apuração do USTR (Escritório do Representante Comercial) dos EUA que acusa o Banco Central de privilegiar o Pix em detrimento de empresas americanas de meios de pagamentos.
Os americanos também disseram, na investigação, que o Brasil aplica tarifas injustas para o etanol americano e falha no combate à corrupção. Em alguns casos, as tarifas são somadas, chegando a 37,5% de alíquota.
Na conversa, Lula disse a Trump que as tarifas afetam negativamente tanto o Brasil quanto os EUA e defendeu que as negociações entre os países continuem.
“[O petista] Reiterou a importância de trabalhar juntos para que os Estados Unidos continuem sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil”, diz outro trecho da nota do governo brasileiro. Já o presidente americano, de acordo com o relato do Planalto, teria concordado “com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes”.
Facções criminosas
Ainda segundo o Planalto, Lula conversou com Trump sobre a recente designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas. O Planalto tentou convencer o governo americano a não adotar a classificação, sem sucesso.
O presidente brasileiro defendeu ao americano que as facções não são grupos terroristas, apesar de exercerem “terror cotidiano sobre as populações mais carentes” e que o Brasil tem instrumentos para enfrentá-las “sem precisar de classificação especial”. Citou, por exemplo, a Lei Antifacção aprovada no Congresso Nacional e sancionada por ele neste ano.
Lula também voltou a propor uma cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado e, de acordo com a nota do Planalto, Trump indicou que vai destacar funcionários de alto escalão do governo dos EUA “para dar seguimento aos entendimentos nessa área”.
O tema do combate à corrupção e ao crime organizado será central nas eleições deste ano e deve ser usado por adversários de Lula no pleito para desgastá-lo. Flávio Bolsonaro é a favor de classificar PCC e CV como terroristas e explorou a situação politicamente, já que o anúncio da medida foi feito após uma visita do senador à Casa Branca.
Além disso, as investigações sobre a relação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e de Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente da República, com a lobista Roberta Luchsinger colocaram o assunto novamente no caminho de uma campanha eleitoral de Lula, que já foi impactado por escândalos como o Mensalão e a Operação Lava Jato.
Durante a ligação nesta sexta, Lula e Trump também concordaram que é urgente encontrar uma solução para acabar com a guerra entre Rússia e Ucrânia, que começou em 2022, e falaram da resolução do conflito contra o Irã.
Defensor de uma reforma no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), o petista criticou a “inoperância” do órgão e sugeriu convocar uma reunião extraordinária para discutir as crises atuais, a exemplo do que sugeriram os líderes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin. (Folhapress)


