“Futebol, política e religião não se discutem”. A frase popular ganha outro significado em Glasgow, na Escócia, onde Celtic e Rangers protagonizam uma das rivalidades mais intensas do futebol mundial. Conhecido como Old Firm, o clássico ultrapassa os limites do esporte e carrega uma história marcada por divergências religiosas, políticas e culturais que atravessam gerações.
A origem da rivalidade
Com a popularização do futebol, diferentes setores da sociedade escocesa começaram a se organizar em clubes, movimento que também acontecia na Inglaterra e em outros países. Em Glasgow, duas equipes surgiram nesse contexto: o Rangers Football Club e o Celtic Football Club, que, posteriormente, protagonizariam uma das maiores rivalidades do esporte mundial.
Fundado primeiro, o Rangers tinha suas origens ligadas a uma comunidade presbiteriana e conquistou identificação entre setores protestantes e mais tradicionais da sociedade escocesa. Do outro lado, o Celtic surgiu em 1887, a partir da iniciativa de religiosos católicos irlandeses, com o objetivo de arrecadar recursos para combater a pobreza entre imigrantes da Irlanda. As cores e os símbolos do clube passaram a representar essa ligação com a cultura irlandesa e o catolicismo.
O primeiro confronto entre as equipes aconteceu em 1888, com vitória do Celtic por 5 a 2, em partida amistosa. O resultado marcou o início de uma rivalidade que ultrapassaria os limites do futebol e ganharia contornos políticos, religiosos e culturais.
Com o passar dos anos, as diferenças entre as torcidas se intensificaram, acompanhando as tensões existentes fora dos estádios. Enquanto o Rangers ficou historicamente associado ao protestantismo e à identidade unionista, ligada à manutenção da união com o Reino Unido, o Celtic passou a representar parte da comunidade católica de origem irlandesa, marcada também pela identificação com a luta pela independência da Irlanda.
Dessa forma, cada encontro entre Celtic e Rangers carrega uma dimensão histórica que vai além dos 90 minutos. Vestir uma camisa do Rangers ou do Celtic em Glasgow começou a significar muito mais do que defender um clube de futebol, dando início a uma das marcas do confronto: o sectarismo.
Retrospecto histórico e números do Old Firm
Desde os primeiros confrontos, ainda no século XIX, Celtic e Rangers construíram uma trajetória marcada pelo equilíbrio e pela disputa por títulos. Em mais de 130 anos de rivalidade, os clubes acumularam centenas de encontros oficiais e dividiram o protagonismo do futebol escocês.
O retrospecto geral contabiliza 395 partidas oficiais entre as equipes. O Rangers somava 148 vitórias, contra 144 do Celtic, além de 103 empates. A proximidade dos números ajuda a dimensionar o equilíbrio de uma rivalidade que também se reflete na disputa por conquistas nacionais.

Os dois clubes concentram grande parte dos títulos do futebol escocês e protagonizaram algumas das decisões mais importantes do país. Ao longo das décadas, tanto o Celtic quanto o Rangers viveram períodos de domínio, alternando conquistas e protagonismo.
Desastre de Ibrox e os episódios que marcaram a rivalidade
Em 2 de janeiro de 1971, o Old Firm de Ano Novo terminou em tragédia no Ibrox Stadium. Após 90 minutos de tensão, o Celtic abriu o placar no último minuto, levando parte da torcida do Rangers a deixar o estádio. Porém, no último lance, Collenstein marcou o gol de empate, provocando uma comemoração que coincidiu com a movimentação de milhares de torcedores em direção à saída.

A pressão sobre a escadaria 13 provocou o desabamento da estrutura, deixando 66 mortos e cerca de 200 feridos. A tragédia marcou a história do futebol escocês e, até hoje, é lembrada em homenagens realizadas pelos dois clubes.
Entre os capítulos mais emblemáticos da história do Old Firm também está a final da Copa da Escócia de 1980. Em 10 de maio daquele ano, Celtic e Rangers se enfrentaram no Hampden Park, em Glasgow, diante de mais de 70 mil torcedores.
Depois de um confronto equilibrado, a decisão foi para a prorrogação. Aos 17 minutos do tempo extra, George McCluskey marcou o gol que garantiu a vitória do Celtic por 1 a 0 e o título da competição.
A comemoração, entretanto, deu lugar a cenas de violência. Torcedores invadiram o gramado, e o que começou como uma celebração dos vencedores terminou em confrontos entre grupos rivais. Garrafas, tijolos e outros objetos foram arremessados, em um episódio que ficou marcado como um dos momentos mais violentos da história do clássico.
Em 2006, em mais um capítulo da rivalidade foi marcado por uma provocação no estádio Ibrox, em Glasgow. Na volta do intervalo, o goleiro Boruc, do Celtic, se aproximou da torcida adversária, posicionada atrás de seu gol, e fez um gesto que provocou uma reação imediata nas arquibancadas.
O motivo, porém, não foi um gesto obsceno ou uma provocação convencional. Boruc simplesmente fez o sinal da cruz. Em um dos clássicos mais marcados por divergências religiosas do futebol mundial, o gesto religioso foi suficiente para inflamar os torcedores do Rangers. No clássico, até mesmo um sinal da cruz pode ser encarado como uma declaração de rivalidade.
A barreira religiosa quebrada em 1989
Outro episódio decisivo ocorreu em julho de 1989, quando o Rangers contratou Maurice Johnston, conhecido como Mo Johnston. Ex-jogador do Celtic e católico declarado, o atacante se tornou o primeiro reforço católico de grande projeção do clube em décadas, rompendo uma política informal de restrição à contratação de jogadores dessa religião.
A negociação provocou reações dos dois lados. Parte da torcida do Rangers rejeitou a contratação, enquanto torcedores do Celtic também demonstraram insatisfação com a transferência de um ex-atacante do clube para o maior rival.
A chegada de Johnston representou uma mudança histórica na postura do Rangers e expôs novamente a força das questões religiosas dentro do futebol escocês. O jogador ainda enfrentou ameaças e precisou de segurança após a repercussão da transferência.
Muito além do futebol
A rivalidade entre Celtic e Rangers ultrapassou os limites dos estádios e influenciou a convivência em diferentes espaços de Glasgow, incluindo bairros, escolas e famílias. Durante décadas, as diferenças religiosas e políticas alimentaram episódios de discriminação, hostilidade e violência entre grupos de torcedores.
Mesmo com as mudanças sociais e culturais ao longo dos anos, o Old Firm continua sendo um dos maiores símbolos da identidade esportiva escocesa. A rivalidade reúne tradição, pertencimento e uma disputa que atravessa gerações.
Mais do que um confronto entre duas equipes, Celtic x Rangers representa um capítulo da própria história de Glasgow. No clássico, a bola rola por 90 minutos, mas as questões que alimentam essa rivalidade existem há muito mais tempo.


