Setores industriais potencialmente afetados pelas novas tarifas que os Estados Unidos podem aplicar contra o Brasil preveem cenário de difícil adaptação e torcem para serem incluídos na lista de exceções. As indústrias brasileiras de ferro-gusa (matéria-prima do aço), madeira processada e calçados, todas com dependência relevante do mercado americano, dizem que seria impossível redirecionar exportações no curto prazo e projetam combo de diminuição da produção com possível corte de vagas.
Em junho, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA), ligado à Casa Branca, concluiu uma investigação comercial apontando que o Brasil lança mão de práticas concorrenciais injustas e discriminatórias. Citando áreas tão diversas como mercados financeiros, etanol e desmatamento, o relatório sugere a aplicação de tarifa de 25% sobre o Brasil. Cabe ao presidente americano, Donald Trump, decidir sobre a aplicação dessa taxa até esta quarta-feira (15).
“Nós não temos um plano B, por ter essa distribuição bem consolidada ao redor do mundo da produção brasileira”, diz Paulo Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci). Hoje, os EUA respondem por 50% das exportações nacionais de itens como molduras de madeira, que já são produzidas para atender aos requisitos da construção civil daquele país, chapas de compensado, pallets, portas, pisos e a madeira serrada, usada nas cercas de madeira das casas de subúrbio vistas nos filmes americanos.
O setor, concentrado no Sul do país, vinha se recuperando do tarifaço de 40% que vigorou de julho de 2025 a fevereiro de 2026. No período, o setor reduziu a produção, deu férias coletivas e fez algumas demissões. Pupo diz que a Abimci não tem uma estimativa de quantos postos de trabalho foram fechados, mas diz que a perspectiva é que o cenário se repita: diminuição nas vagas e nos investimentos.
“A expectativa é ser incluído na lista de isenções”, diz Fausto Cançado, presidente do Sindicato das Indústrias do Ferro (Sindifer) de Minas Gerais, ecoando uma expectativa compartilhada com a indústria da madeira. Três quartos de todo o ferro-gusa que o Brasil produz foram exportados no ano passado. Desse montante, 80% embarcaram com direção às fundições dos EUA, que produzem apenas 6% do ferro-gusa consumido no país.
Cançado diz que o redirecionamento em curto e médio prazo é difícil, já que o mercado internacional é muito bem dividido e o Brasil responde por 6 em cada 10 toneladas de ferro-gusa adquiridas pelos EUA. Em uma conta preliminar, o Sindifer estima que 55% das fábricas brasileiras de ferro-gusa podem parar de forma definitiva ou temporária se as novas tarifas forem aplicadas.
No caso desse setor, há uma dificuldade adicional: seria muito caro reduzir de forma significativa a produção nos altos-fornos, que produzem dia e noite em linhas de produção já dimensionadas para um determinado volume. Já em calçados, que também se recupera do último tarifaço, nova taxa de 25% afetaria principalmente Rio Grande do Sul, São Paulo e Ceará.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que US$ 14,9 bilhões (R$ 76 bi) estejam sob risco caso os EUA resolvam adotar todas as tarifas sugeridas pelo USTR: 25% da investigação sobre práticas comerciais e outros 12,5% da investigação paralela sobre trabalho escravo. Além dessas tarifas, também estão em vigor as alíquotas de 10% da Seção 122, que expiram no fim de julho e precisam de autorização do parlamento americano para serem renovadas, e as alíquotas setoriais impostas pelo Departamento de Estado americano sob a Seção 232, que atingem cerca de US$ 8 bilhões (R$ 41 bilhões) em exportações brasileiras para os EUA.


