+ Postagens

“A gente vai enfrentar uma força política bruta, que acha que vai resolver a eleição por W.O.”

Também recebido pelo “Caráter Eleições 2026”, Roberto Cláudio relembrou a experiência à frente da Prefeitura de Fortaleza e afirmou que pretende levar para uma eventual gestão estadual propostas para segurança pública, saúde e economia.

– Publicidade –

Ao falar sobre a relação com o senador Camilo Santana (PT), antigo aliado, atribuiu o distanciamento a diferenças acumuladas de estilo, prioridades e visão sobre o projeto político. 

O candidato também defendeu políticas voltadas à autonomia financeira das mulheres e a presença feminina em diferentes áreas de um eventual governo.

Na segurança, criticou a interpretação de que a queda nos homicídios represente, por si só, redução da violência e defendeu mais investimento em inteligência e integração das forças policiais. Sobre a eleição presidencial, disse ainda não ter definido quem apoiará. A entrevista na íntegra com RC está disponível no YouTube deste jornal.

CARÁTER: Roberto Cláudio, qual é o seu caráter?
RC: Eu não sei definir exatamente qual é o meu caráter. Eu sei onde buscar a raiz dele, talvez melhor do que defini-lo. E certamente a influência mais forte foi essa influência da família, da casa. Inclusive, fazendo aqui uma confidência: quando acabei a Prefeitura, ainda um pouco emocionado com tudo que vivi, um jornalista amigo me procurou para saber se eu não queria fazer uma biografia sobre a minha história na Prefeitura. Eu comecei, no meio da biografia, a resgatar o tempo inteiro a minha infância, a minha juventude. Sempre tinha uma âncora, alguma coisa que me ligava a essa experiência. Até acabou tudo. Eu vou a um endereço chamado Vilebaldo Aguiar, 300. Eu já sei o nome do livro. O título do livro que ficou para mim, e que gravou a entrevista, seria “Vilebaldo Aguiar, 300”, porque tudo tinha muito a ver com essa minha história de vida, entendeu? Só que eu passei os primeiros capítulos para o meu pai, ainda vivo, para ele ler. Aí ele disse: “Beto, está muito bacana, mas eu pergunto: você está planejando morrer logo?” Aí eu disse: “Não. Com 46 anos, fazer uma biografia?” Ou é um ato de presunção muito grande ou de quem está planejando alguma morte precoce. Então, guarde isso aí, guarde para suas memórias. Elas são história e deixe para lá na frente, para chegar aos 90.

CARÁTER: Estamos a 12 dias do primeiro turno, qual é o saldo de toda a campanha?
RC: Olha, a campanha… Eu já participei de algumas majoritárias. As minhas, diretamente, foram três: duas como prefeito, uma como governador, e participei de várias outras como apoiador. Essa é a minha quarta como candidato, agora a candidato a vice, que é um papel bastante diferente do candidato majoritário principal. Mas, de alguma maneira, você é candidato. E o exercício mais interessante da campanha, envolvendo a pré-campanha e a campanha, é você aprofundar sua relação com as pessoas de verdade, entender melhor a natureza dos problemas. E então a campanha serve para a gente poder ter a humildade de ouvir, de aprender, de aprofundar a compreensão dos problemas e de se comprometer moral e pessoalmente em resolver algumas questões.

CARÁTER: O que você traz da gestão que fez na Prefeitura de Fortaleza e que gostaria de levar, se eleito for, à vice-governadoria do Ceará?
RC: Eu aprendi muito com o Ciro e não estou falando isso só porque eu sou vice. Eu acho que essa experiência que eu aprendi com o próprio Ciro — dizendo isso sem nenhum agrado ou exagero — e que pratiquei em várias dimensões da administração pública é algo que eu não tenho dúvida que o Ciro levará para a gestão. Principalmente para prioridades que estão colocadas aí e que são complexas: enfrentar as facções, qualificar e reorganizar nosso sistema de saúde pública, dando a ele muito mais eficiência e agilidade no atendimento, e repensar a economia do Ceará em termos de reforma tributária, em tempos de novas atividades econômicas que o Ceará não imaginava há 20 ou 30 anos, como a agroindústria. Então, tem muita coisa acontecendo. A gente tem que tirar proveito disso para poder repensar a economia do Ceará.

CARÁTER: O Camilo Santana, que foi seu aliado durante muito tempo, disse que ainda poderia haver uma conversa com você para 2022. Como você vê isso?
RC: Olha, eu acho que existem relações que terminam. E, às vezes, elas não terminam por um único motivo. É um conjunto de diferenças que vai se acumulando ao longo do tempo. Eu acho que foi isso que aconteceu. Foram diferenças de estilo, de compromissos, de prioridades e de visão sobre o projeto político. Não foi simplesmente uma questão de o PT apoiar ou não apoiar. Acho que houve um processo de distanciamento.

CARÁTER: Mas seu partido poderia indicar Izolda…
RC: Não. A Isolda não era o ponto central dessa discussão. Havia uma discussão maior, inclusive dentro do PDT e do PT, sobre os caminhos que seriam tomados, sobre as quatro pré-candidaturas que estavam colocadas e sobre a construção de um novo projeto. Eu costumo pensar muito naquela frase: “Às vezes, eu fico pensando: é melhor ser enganado do que ser enganador”. E isso tem muito a ver com a forma como eu procuro conduzir minha vida. Eu prefiro acreditar nas pessoas, mesmo sabendo que posso eventualmente me decepcionar.

CARÁTER: Como ficou sua relação com o Camilo Santana depois de todo esse processo?
RC: Eu tenho uma relação cordial com o Camilo. Não tenho nenhum problema pessoal com ele. Mas acho que nós passamos a ter visões diferentes sobre o exercício do poder, sobre prioridades e sobre o próprio caminho político. E acho que a derrota também foi importante para mim nesse processo. Esses quatro anos de oposição me fizeram voltar a olhar muito mais para as pessoas e menos para os políticos. Eu acho que isso foi muito importante para mim.

CARÁTER: Não há nenhuma mulher na chapa majoritária. Por que isso aconteceu? E, caso vocês sejam eleitos, haverá paridade entre homens e mulheres no secretariado?
RC: A composição política é resultado das decisões dos partidos que estão participando da aliança. E, nesse caso, acabamos tendo uma composição com quatro homens. Agora, se nós formos eleitos, eu defendo que as mulheres tenham responsabilidades importantes no governo. Isso já aconteceu em outras administrações. Mas eu acho que a política para as mulheres não pode se resumir à existência de uma secretaria específica. Elas precisam estar presentes em várias áreas do governo.

CARÁTER: Você falou em autonomia financeira. Como pretende trabalhar essa questão?
RC: Isso está diretamente relacionado ao combate à pobreza. O Ceará tem uma parcela muito grande de famílias de baixa renda, e muitas vezes a mulher é a principal responsável pelo sustento da casa. Muitas são mães solo e precisam de uma política pública que considere essa realidade. Por isso, nós estamos discutindo o projeto Travessia, que tem como objetivo erradicar a extrema pobreza em quatro anos. É um projeto que precisa identificar as famílias, conhecer a realidade de cada uma e oferecer uma política adequada para cada situação. A ideia é utilizar uma estrutura próxima das famílias, com o agente comunitário da família, para identificar essas pessoas, acompanhar cada situação e construir uma política de complementação de renda e de inclusão social.

CARÁTER: E sobre a violência contra a mulher?
RC: Nós precisamos ampliar muito a prevenção e o atendimento. Os números que temos mostram um crescimento preocupante dos feminicídios, e também mostram que muitas mulheres já procuraram algum tipo de ajuda do Estado. Então não basta criar uma estrutura. É preciso fazer com que essa estrutura funcione, esteja próxima das mulheres e consiga agir antes que a violência chegue ao extremo. A política para as mulheres precisa ser transversal. Ela envolve segurança, saúde, educação, assistência social, emprego, renda e autonomia. É esse conjunto de políticas que pode produzir uma mudança efetiva na vida dessas mulheres. 

CARÁTER: O governo tem apresentado números de redução dos homicídios, inclusive com base em dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Como você avalia esses números?
RC: Eu acho que nós estamos vivendo uma tragédia na segurança pública. E eu não concordo com a interpretação de que simplesmente houve uma redução da violência porque os números de homicídios caíram. O que aconteceu, na minha avaliação, é que as facções passaram a controlar territórios e, quando uma facção controla determinado território, diminui o conflito entre grupos rivais naquele espaço. Isso pode produzir uma espécie de falsa paz numérica. Nós temos relatos de controle territorial, expulsão de famílias, cobrança de valores, controle sobre serviços e até cobrança por água, gás e internet. Existem cidades em que a presença das organizações criminosas é muito forte.

CARÁTER: E o que você faria de diferente nessa área?
RC: Não basta contratar policiais, comprar viaturas e colocar mais policiais nas ruas. Isso é importante, mas não resolve sozinho o problema. Nós precisamos investir muito mais em inteligência. É preciso integrar as polícias investigativa e ostensiva, melhorar a troca de informações e fortalecer a investigação contra o crime organizado.Também precisamos aumentar a capacidade do sistema prisional e melhorar o monitoramento eletrônico.

CARÁTER: E o uso de câmeras? Você considera importante?
RC: Câmera é uma ferramenta. É importante, mas é um detalhe dentro de uma estratégia muito maior. Não podemos achar que tecnologia, sozinha, vai resolver o problema da segurança pública.

CARÁTER: E as políticas específicas de proteção às mulheres, como a Patrulha Maria da Penha e a Casa da Mulher Brasileira?
RC: São iniciativas importantes e que precisam ser mantidas e fortalecidas. A Patrulha Maria da Penha e a Casa da Mulher Brasileira têm um papel relevante, mas ainda são insuficientes diante do tamanho do problema.

CARÁTER: Você já tem uma definição sobre quem pretende apoiar para presidente?
RC: Ainda não. Eu estou acompanhando os candidatos, os debates e o processo político. Ainda estou avaliando e não tomei uma decisão definitiva.

CARÁTER: Você fala isso mesmo diante das diferenças que existem em relação ao governo Bolsonaro e ao que aconteceu durante a pandemia?
RC: Eu critiquei publicamente a condução da pandemia pelo Bolsonaro. Fiz isso de maneira muito clara. Mas, enquanto prefeito, minha obrigação era resolver os problemas da cidade. Então eu precisava buscar recursos, equipamentos, vacinas, medicamentos e parcerias, independentemente das diferenças políticas. Eu sempre entendi que o papel de um gestor é defender os interesses da população. E é isso que eu espero de um governador.

CARÁTER: E como você vê a aliança com o PL, principalmente diante da possibilidade de apoio a Flávio Bolsonaro?
RC: Todas as conversas que aconteceram foram feitas no âmbito estadual, com o PL do Ceará. Eu pessoalmente encontrei o Bolsonaro depois de ter apoiado o André no segundo turno em Fortaleza. Agora, eu não tenho conhecimento de nenhuma conversa entre o Ciro e o Flávio Bolsonaro. A aliança que está sendo construída é uma aliança para o Ceará. Nós fizemos um entendimento: gente vai enfrentar uma força política bruta, perseguidora, autoritária, sabe, que acha que vai resolver a eleição por WO, na marra. Tomar, quis tomar o nosso partido a força na justiça. Quis provocar um afastamento plantando fofoca do PL conosco. Quis tirar com o processo judicial o Ciro do direito de ser candidato. Então, quiseram de todo jeito evitar uma eleição. Se tem um tipo de democrata que não aprecia democracia, essa turma. Que diga aos setores da imprensa, setores do judiciário, órgãos de controle, que eles querem se meter em tudo para controlar o processo eleitoral, controlar e influenciar o processo eleitoral […] E não conseguiram porque a gente fez esse acordo. Vamos deixar de lado as nossas diferenças nacionais. Cada partido vai ter a sua independência para seguir o caminho que quiser nacionalmente e aqui no Estado do Ceará estabelecer uma aliança que possa dar ao povo cearense uma alternativa de mudança com o Ciro candidato ao governo do Ceará. Essa foi esse foi o nosso único entendimento com o PL 

CARÁTER: E você acredita que essa eleição pode ser decidida já no primeiro turno?
RC: É muito difícil dizer. Temos duas candidaturas fortes e uma terceira candidatura colocada. Eu trabalho com os dois cenários. Acho que não é possível prever. A eleição ainda vai acontecer e muita coisa pode mudar.

Considerações finais
Eu sou candidato a vice-governador em uma aliança ampla, que busca apresentar um novo projeto e um novo ciclo para o Estado. Nós temos algumas prioridades muito claras: enfrentar o problema das facções e da segurança pública, melhorar o planejamento e a gestão da saúde, trabalhar pela economia, pela geração de emprego e pela melhoria da renda. Existe também um projeto de continuidade do que está sendo feito atualmente. Cabe ao eleitor refletir sobre os dois caminhos e escolher aquele que considerar melhor para o Ceará.

Fonte Matéria

Latest Posts

spot_imgspot_imgspot_img
spot_imgspot_img

+ LEIA TAMBÉM

RECEBA NOVIDADES

Receber notícias em primeira mão em seu email nunca foi tão fácil, basta colocar seu email abaixo: