O Vale-Refeição (VR) se tornou o principal vilão financeiro para os bares e restaurantes do Recife e Salvador. Uma pesquisa inédita realizada pelo instituto Ipsos-Ipec revelou que o setor alimentício no Nordeste enfrenta as maiores taxas de benefícios do Brasil, ficando atrás apenas da capital paulista. O custo elevado do VR compromete a rentabilidade dos pequenos empresários e pressiona a sustentabilidade do setor na região.- Publicidade –
A taxa média cobrada pelas operadoras de Vale-Refeição no Nordeste subiu para 7,09% em 2026. O indicador representa uma escalada expressiva e coloca a região bem acima da média nacional, registrada em 6,18%.
No panorama entre as capitais analisadas, o custo suportado pelos comerciantes nordestinos só é menor do que o apurado em São Paulo, onde a taxa do benefício atingiu o patamar de 8,62%.
O encarecimento do benefício corporativo no Nordeste ocorre em ritmo superior ao de outros meios de pagamento. Enquanto o mercado nacional registra taxas mais baixas no crédito e no débito, o VR segue em trajetória de alta contínua. Essa disparidade faz com que aceitar o cartão de refeição custe, na média do país, cerca de 5,8 vezes mais para os estabelecimentos do que receber via Pix.
Descontrole tarifário e falta de regulamentação no setorA alta nas taxas de Vale-Refeição ocorreu mesmo após as tentativas do governo federal de fixar um teto de 3,6% para as cobranças das operadoras. Especialistas do setor explicam que o segmento opera sob a lógica de empresas privadas de benefícios corporativos, atuando fora do escopo de regulação do Banco Central. A ausência de regras rígidas e de transparência regional de dados impede a contenção dos preços na ponta final.
Ao contrário do setor de cartões de débito e crédito, que possui regras mais consolidadas, o mercado de benefícios atua sem mecanismos que obriguem a redução do custo do comerciante.
A falta de concorrência efetiva entre as emissoras e a ausência de fiscalização sobre os limites tarifários mantêm as alíquotas elevadas, sobrecarregando os estabelecimentos comerciais do Nordeste.
Sem poder de negociação frente às grandes operadoras, os proprietários de restaurantes acabam reféns das taxas impostas. O cenário se agrava pela falta de alternativas no mercado corporativo, obrigando os empresários a absorverem os reajustes para não perder a receita vinda dos trabalhadores que utilizam o benefício diariamente.
Corrosão da margem de lucro nos pequenos negóciosO impacto do custo do VR é desproporcional para os pequenos restaurantes que faturam até R$ 30 mil e operam com estrutura enxuta. Nesses estabelecimentos, a taxa média do Vale-Refeição saltou de 4,79% para 6,44% em apenas um ano. Pagar esse percentual em cada transação significa abrir mão de até metade da margem líquida do negócio em cada refeição vendida.
A perda de rentabilidade não pode ser evitada por meio do repasse de preços ao consumidor final. Como o valor do prato ou do prato feito permanece o mesmo independentemente da forma de pagamento escolhida pelo cliente, o restaurante absorve integralmente o prejuízo. Essa dinâmica erode o faturamento dos micro e pequenos empresários das capitais nordestinas.
A situação do setor na região reflete a vulnerabilidade das microempresas diante dos custos fixos dos meios de pagamento. Com margens de lucro cada vez mais estreitas, os comerciantes locais enfrentam dificuldades para manter a saúde financeira das operações e garantir a manutenção dos postos de trabalho no segmento.
“Não podemos dizer que estamos surpresos. Há um esforço enorme das empresas administradoras para driblar as regras atuais por meio de produtos e práticas que já foram alvo de questionamentos junto ao Ministério do Trabalho, tanto no âmbito negocial quanto no judicial. Espera-se que essas práticas sejam cessadas e que o trabalhador possa ter acesso a refeições ainda mais baratas”, avalia Fernando de Paula, vice-presidente da Associação Nacional de Restaurantes (ANR).
Dependência do cliente corporativo impede migração para o PixA única vantagem competitiva identificada pela pesquisa na região Nordeste está na taxa do Pix, que registra o menor custo do país, com taxa média de 0,83%. O valor fica abaixo do registrado em São Paulo, de 0,96%, e da média nacional, de 1,06%. Em termos econômicos, a migração dos clientes para o pagamento instantâneo seria a solução ideal para recuperar a margem dos estabelecimentos.
No entanto, a transição do cliente do Vale-Refeição para o Pix esbarra em uma trava estrutural do mercado de benefícios. Os estabelecimentos de bairro dependem diretamente do fluxo dos trabalhadores corporativos do entorno. Como esses consumidores recebem o saldo mensal travado no cartão do VR, eles não possuem a opção de pagar via Pix no momento do almoço.
A decisão sobre qual bandeira de cartão de benefício será utilizada não cabe ao restaurante nem ao trabalhador, sendo definida exclusivamente pelo setor de Recursos Humanos das empresas contratantes.
Para a ANR, os resultados reforçam a importância de consolidar a modernização do PAT. Um ambiente mais competitivo tende a reduzir custos para restaurantes e bares, fortalecer a rede credenciada e garantir que uma parcela maior dos recursos do benefício cumpra sua finalidade: ampliar o acesso dos trabalhadores à alimentação
MOVIMENTO ECONÔMICO


