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“O Ciro pode fazer, dizer o que quiser de mim, eu não vou comentar”, afirma Cid

Por Gabriela de Palhano e Kelly Hekally

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O senador Cid Gomes (PSB) esteve no jornal O Estado na última sexta-feira (22), para a entrevista que lançou o programa CARÁTER novo produto do veículo. Ao final da gravação do vlogcast, Cid conversou por cerca de 30 minutos com as jornalistas Gabriela de Palhano e Kelly Hekally.

Na conversa exclusiva, cuja íntegra segue abaixo, o parlamentar disse que vai votar em Lula (PT) e passar a estar em seus palanques, teceu elogios ao governador Elmano de Freitas (PT), a quem se referiu como pessoa grata, e comentou sua relação atual com o também senador Camilo Santana (PT).

“Se você me perguntar se a minha relação com o Camilo é igual a relação com o Camilo há dez anos, claro que eu vou dizer que não. Não é. Mas ele é profissional”.

Ao ser questionado sobre a decisão de seu irmão Ciro Gomes, presidente do PSDB Ceará, de ser pré-candidato ao Governo do Estado, e sobre se há incômodo com o perfil de aliança política que Ciro construiu ao seu redor visando ao pleito, Cid evitou realizar críticas, mas pôs em xeque eventuais reciprocidades do irmão ao comentar o momento eleitoral.

Cid, Camilo e Ciro são também ex-governadores do Ceará. “Jamais deixarei de ter respeito, afeto e gratidão ao Ciro, porque é o nosso irmão mais velho, mas família é uma coisa, e política é outra […] Respeito o valor, respeito a pessoa, mas nós estamos em lados opostos. E, para o meu conforto, quem mudou de lado não fui eu. Foi ele que mudou de lado”.

O Estado – A pequena política, dos municípios, dos vereadores, dos prefeitos, que o senhor defende, é a chave para manter seus redutos eleitorais?
Cid Gomes – Não existe bala de prata também. Se eu posso resumir, para você ter longevidade numa atividade em que você trata com muita gente, em que o conflito é comum, numa tentativa assim de ser simplório, você tem três formas de se manter nessa atividade. Um é ter poder, e eu tenho uma relação muito tranquila com ter poder e não ter poder. No popular, estar de cima e estar de baixo. Já estive nas duas posições muitas vezes […] Eu aprendi a conviver com isso e compreender. Outra forma de se manter na política, infelizmente, é ter dinheiro […] Não, é ter dinheiro, simplesmente. O último que tentou só por esse atributo aqui no Ceará não se elegeu mais. Eu posso dizer com tranquilidade que hoje não tem nenhuma pessoa que esteja na política no Ceará só pelo atributo de ter dinheiro. Ou ele trabalha, ou ele mantém uma relação, ou ele faz um vínculo com lideranças, ou ele não consegue. E a terceira forma é fazer relações pessoais, que é o que eu procuro fazer. Vou identificando e as pessoas também identificam em mim algumas qualidades que eu me esforço para ter. Solidariedade, gratidão, lealdade, que é o que, repito, me permite essa longevidade, porque também, hei de concordar, já estou na política [eletiva] há 46 anos.

OE – O senhor falou que não decidiu ainda se vai ser candidato, se não vai ser. O senhor vai deixar a decisão para os 45 do segundo tempo?
Cid – Eu defino prioridades, e minha prioridade, uma tarefa a qual eu me dedico de corpo e alma de manhã, de tarde e de noite, brigando, reclamando, sendo chato, é que o meu partido faça no Ceará um senador, cinco deputados federais e 14 deputados estaduais, 13, 14, o que eu acho que a gente vai fazer. O meu interesse pessoal, lhe juro, você pode não acreditar, mas está em segundo plano. Quem quer para si não tem para dar para os outros. Se eu fosse me angustiar por um lugar para mim, pode ter certeza que as pessoas iam enxergar. 

OE – É que há uma pressão para o senhor ser o candidato ao Senado, por exemplo, do senador Camilo…
Cid – Isso é outra história. Eu sou também transparente. O que está viabilizando a condição, quem vai dizer quantos deputados federais a gente vai eleger, é o povo. Eu não quero me arvorar, nem ser prepotente de dizer que nós vamos fazer. O que eu quero é disponibilizar que o meu partido ofereça nomes que os cearenses possam escolher, e que isso resulte em uma bancada de cinco deputados federais, treze deputados estaduais. E não é pouca coisa. Qual é o outro partido que pode fazer isso no Ceará? Nenhum partido no Ceará pode fazer o que o PSB está oferecendo. Nenhum partido no Ceará pode chegar a cinco deputados federais e treze deputados estaduais, conjuntamente […] O meu trabalho é estimular lideranças, nomes bons, nomes qualificados, nomes diversos para que as pessoas possam ter no PSB a alternativa do A ou C. Se quiser votar num deputado que defende a zona rural, ele vai ter uma opção. Se ele quiser votar num deputado que é um intelectual, ele vai ter a opção.

OE – E quem são os quatorze?
Cid – Eu estou trabalhando para que a gente possa ter uma nominata para deputado estadual em torno de quarenta nomes. Serão todos representativos.

OE – Senador, o senhor concorda com a tese que seu colega de Senado, Camilo Santana, de que a vice na chapa precisa ser uma mulher?
Cid – Eu acho importante que uma chapa composta por um governador, um vice-governador, dois senadores, estamos falando de quatro nomes, tenha assegurado a representação feminina. Se isso é na vice ou é numa senatória, vamos decidir. Mas eu acho que é importante que tenha, simbolicamente, uma mulher entre esses quatro nomes majoritários.

OE – O senhor não tem subido no mesmo palanque do presidente Lula, ido a eventos e ficado ao lado de Lula… Tem uma questão familiar, de respeito familiar que envolve seu irmão Ciro Gomes?
Cid – Veja bem, se é uma coisa que eu primo e me policio… A vida é cheia de tentações, e a gente tem que se disciplinar e não se deixar envaidecer, não se deixar, enfim, ser absorvido por uma série de defeitos, que acho que são comuns na natureza humana. A gente tem que primar para ser virtuoso. Então, o que é que eu defendia e a rigor? Mesmo tendo lançado [seu nome], ainda é possível, mas não sei. ‘Ah, o Ciro se lançou candidato a governador?’… Muito bem. Então, estou acreditando que não tem mais volta. Eu defendia até a véspera que ele fosse candidato à presidência da República. Como é que eu defendo que o Ciro seja candidato à presidência da República e vou estar lá, paparicando ao lado do Lula, que é candidato à reeleição? Então, enquanto essa coisa não se definiu, e agora estou considerando definida, se o Ciro não é mais, muito bem, acho que o melhor nome dos que estão postos aí é o nome do Lula mesmo. Eu preferia votar no Ciro, mas, já que ele não quer, vou votar no Lula. E pode ter certeza que num próximo evento estarei lá do lado dele [Lula], porque, a partir da não candidatura do Ciro, o Lula passa a ser o meu candidato. 

OE – O senhor não ficou em Brasília para o nome do Messias [ao Senado]. Foi intencional ou realmente uma coincidência de agenda para Portugal?
Cid – Você faz 20 anos de casamento quantas vezes na vida? Você faz 63 anos quantas vezes na vida? 27 de abril é o meu aniversário, eu que sou nascido em 63 fiz 63 anos e 20 anos de casamento fiz no dia 5 de maio… E além disso acho que a política no mundo, ou esse sentido de centro, esquerda e direita, está perdendo o real vínculo com o que é ser de esquerda ou ser de direita. E os partidos progressistas, ou de esquerda, estão abandonando a verdadeira luta dos propósitos de você ser de esquerda e se deixando contaminar por teses que são legais, que eu defendo todas como regra, mas não são as essenciais, que são aquelas vinculadas à economia, à desconcentração [de riqueza], à distribuição de renda, que é o sentido verdadeiro de ser de esquerda e ser de direita. Quem é de direita defende o status quo, a estrutura econômica e social como está posta. Quem é de esquerda não se conforma com isso, quer mudar, quer que os ricos distribuam mais, que as riquezas sejam melhor distribuídas. Nós somos um partido socialista, Partido Socialista Brasileiro, e eu estou procurando estreitar contatos com o Partido Socialista Português. Estamos até pretendendo fazer um seminário agora em julho, para que a gente possa discutir isso. Então, você acha que tudo isso foi para não votar no Messias? Eu disse para o Messias, em novembro, que ele, se não fizesse algumas coisas que disse para ele com sinceridade, não seria o meu voto que iria dar a vitória ou a derrota. Se eu tivesse votado nele a favor ele tiraria ganho? A coisa que eu me esforço é para ser sincero, eu não gosto de enganar ninguém […] O que digo hoje eu quero que sirva para amanhã, para depois da manhã e para daqui a dez anos. Eu disse ‘Messias, na condição que está, você não tem 25 votos no Senado, certo? Ou você conversa pessoalmente com o Pacheco, que para mim e para meia banda do Senado era o nome que estava talhado, pronto para aquela função, e o convence a ficar do seu lado, ou o presidente Lula tem uma conversa com o Davi [Alcolumbre, presidente do Senado] e convence o Davi, ou todo esforço vai ser inútil’. Ele sabia disso. O Messias é um cara preparado, tem experiência mesmo na juventude, como o Rodrigo também é jovem, mas tem experiência. O Rodrigo foi deputado federal, presidente da comissão mais importante da Câmara, a CCJ, é senador, foi presidente do Senado. Nós devemos a democracia no Brasil ao Rodrigo Pacheco. O Arthur Lira [ex-presidente da Câmara dos Deputados] já tinha se entregue ao Bolsonaro. Se o Rodrigo Pacheco não tivesse feito uma trincheira de resistência, o Brasil tinha entrado na ditadura ou pelo menos teria estado mais próximo de ter entrado. Esse cara não merece um reconhecimento? A meu juízo, [os votos] foram numa visão de que existia um nome que reunia condições maiores. E essa história fica assim reproduzindo que isso é uma prerrogativa do presidente. Se fosse uma prerrogativa exclusiva do presidente, não tinha aprovação, ele nomeava e pronto. Isso é uma coisa que deve ser feita de forma republicana. É uma corte de Justiça, a mais alta corte de Justiça, que deve, pela Constituição, ser de iniciativa de indicação do presidente, mas tem que ter aprovação do Senado. E é razoável que se conversem as duas casas ou os dois poderes. Eu acho que faltou isso.

OE – Senador, perguntamos há uns dias ao senador Camilo se havia mal-estar entre ele e o senhor, e o senador nos disse que não. Pergunto ao senhor: há algum mal-estar entre o senhor e o senador Camilo?
Cid – Se você me perguntar… Eu nunca aprendi a mentir. Não vai ser depois de velho [que eu vou mentir]. Se você me perguntar se a minha relação com o Camilo é igual a relação com o Camilo há dez anos, claro que eu vou dizer que não. Não é. Mas ele é profissional. Eu sou profissional também. A gente senta, conversa, diverge, briga internamente. Mas a gente está junto num projeto, que é a reeleição do governador Elmano. Pronto. Isso é que é o importante. 

OE – Ou seja, o senhor não chamaria o Camilo para ser seu candidato de novo, como o senhor chamou há dez anos…
Cid – Pelo amor de Deus, eu não estou dizendo isso. Não estou dizendo isso. Mas eu não vou fazer especulação sobre isso. Eu tenho um compromisso, penso dez vezes antes de dizer uma frase. E pronto. E digo, e você vai arrancar de mim só a mesma frase. Eu me sinto na obrigação, no compromisso, de votar no governador Elmano, que para mim é o candidato natural à reeleição. Ponto. Eu não vou discutir sobre condicionantes, sobre hipótese. Não vou. Para mim, o candidato natural é o governador Elmano. Eu enxergo nele atributos que são fundamentais. Porque eu jamais votaria nele se eu não enxergasse nele atributos que eu já enxerguei como candidato. Que eu já identificava como candidato. Eu enxergava nele uma pessoa que guarda a virtude da gratidão, que para mim é a mãe de todas as virtudes. Quem não tem, e isso não é frase minha, não, eu li, quem não tem gratidão não tem nenhuma outra virtude. Pode escrever e procure ver ao longo da sua vida. Se uma pessoa é ingrata, não espere dela nenhuma outra virtude. O Elmano tem o sentimento da gratidão, porque ele foi um cara grato e leal a Luizianne há 20 anos, pela oportunidade que a Luizianne deu a ele de ser secretário dela, de ser o candidato à sucessão dela, e ele foi grato a ela o tempo todo e eu ainda enxergo. Depois, o Camilo o escolheu governador. E à função de governador ele deve ter gratidão ao Camilo. Muitas vezes, já disse isso, falo para a Luizianne, cem vezes ‘tu vai te colocar numa condição do Elmano de ter que escolher entre você e o Camilo, cem vezes o Elmano vai escolher o Camilo, porque ele está hoje numa função que quem deu a ele a oportunidade foi o Camilo’. Mas ele, tenho certeza, ainda nutre um sentimento de carinho, de gratidão pela Luizianne. Então, ele tem esse sentimento. E uma outra coisa: na política é muito comum o contra tudo e o contra todos. A negação, tudo está errado, tudo é desonesto e tal. São pessoas que não têm expectativa de ser o executor da política pública, e, como não vai ter essa responsabilidade, ele pode se dar o direito de negar tudo, porque ele não vai enfrentar a incoerência de, quando tiver a responsabilidade de governar, ter que ter um comportamento diferente do que ele dizia. E o Elmano poderia fazer isso, mas ele, em diversas oportunidades, no Parlamento, teve o que eu chamo de senso da governança, da responsabilidade da governança, e teve, e agora no governo também. Teve que ferir algumas pessoas que tinham nele outra expectativa. Quer dizer: é muito fácil você dizer assim ‘Ah, não pode colocar drone para fazer pulverização’. Qual é a alternativa? É o avião? O avião eu concordo, é uma coisa que você não consegue limitar aquela área […] Qual é a alternativa ao drone que voa baixo e não tem perigo de levar para o outro? É uma pessoa ir com a máquina, e ele ser o prejudicado. O que é melhor você fazer com a máquina, longe, com controle remoto ou um cara lá ou não vai ter a cultura? Vamos deixar de plantar banana, vamos deixar de plantar tudo? Muito bem a gente pode fazer essa opção por nada, por não fazer nada, e não vai ter renda, não vai ter emprego, não vai ter nada para ninguém. Essa é uma opção. E ele [Elmano] tem o senso da responsabilidade, da governança. Para além disso, é um cara que para mim tem palavra, espírito público, um cara que trabalha, se dedica, se esforça, se sacrifica, porque também é muito cômodo você estar no poder e ficar só deslumbrado. Enfim, ele tem dedicação. 

OE – Senador, o seu irmão Ciro, já tem um tempo, está construindo, e consolidou, uma aliança com pessoas que se envolveram diretamente no motim de policiais, período em que o senhor foi baleado, podia ter perdido a vida… Hoje, vendo essa circunstância do seu irmão ao lado de pessoas que estiveram nesse movimento, com seus opositores, o que o senhor sente?
Cid – Olhe, assim, eu não vou fazer um comentário em relação ao caminho, à vida, à decisão, à opção que o Ciro fez, tá certo? Eu tenho uma preocupação que é de ordem assim, pessoal, porque me incomoda, de modo respeitosamente com quem me fala, uma pessoa chegar para mim e dizer assim: ‘Rapaz, você não vai votar no seu irmão?’ O que é que para mim parece? Que eu sou um cara é ingrato – e gratidão é a mãe de todas as virtudes, e eu procuro cultivar a virtude da gratidão – que eu sou um cara desprezível e tantos mais adjetivos que você possa encontrar. E eu não posso, a uma pessoa como essa que me aborda, posso fazer um retrospecto dos últimos cinco anos, que foi o que distanciou o Ciro do grupo que ele integrava. O Ciro se distanciou e se afastou desse grupo, que foi o grupo que me elegeu governador lá em 2006. É o mesmo grupo. São as mesmas lideranças, como regra, as minhas na liderança. Então, ele faz a opção que quiser, eu não vou falar nada, não vou comentar. O Ciro pode fazer, dizer o que quiser de mim, eu não vou comentar. Eu estou, assim, tranquilo, e para essas pessoas eu digo o seguinte: ‘Olha, sim, muito bem, família é um valor importante, né? Considero demais, tenho muito zelo pela minha. Tenho muita gratidão ao meu pai, a minha mãe, ao que eles fizeram por nós, todos os filhos. Jamais deixarei de ter respeito, afeto e gratidão ao Ciro, porque é o nosso irmão mais velho, mas família é uma coisa e política é outra’. E tanto é assim que da parte dele ele deverá ter lá, uma chapa de dois senadores. Estou repetindo coisas que eu já disse… Para efeito de conjectura, não estou admitindo, não estou insinuando, coisa nenhuma, mas não é possível que eu possa ser candidato a senador? O Ciro vai deixar de votar num dos dois senadores lá da chapa dele para votar em mim? Acho que não. Tenho certeza que não. Respeito o valor, respeito a pessoa, mas nós estamos em lados opostos. E, para o meu conforto, quem mudou de lado não fui eu. Foi ele que mudou de lado. 

Fonte Matéria

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