“Ninguém come biodiesel, ninguém come gasolina. As pessoas comem comida.” Em seu segundo dia na Alemanha, Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender o biocombustível brasileiro na Feira Industrial de Hannover, a maior do gênero no planeta. O Brasil é o país convidado da 79ª edição do evento.Na abertura do 42º Encontro Econômico Brasil-Alemanha, Lula afirmou que a agricultura brasileira é avançada o suficiente para evitar qualquer risco à segurança alimentar, uma das preocupações europeias, junto com a questão ambiental. “Se tem uma coisa que nós temos de sobra é terra fértil, agricultável para produzir. E quem quiser ir no Brasil nos ajudar, nós estamos colocando à disposição 40 milhões de hectares de terras degradadas que nós queremos recuperar”, disse o presidente.A UE limita, por exemplo, o uso de biocombustíveis à base de culturas alimentares. Uma revisão em discussão caminha para colocar o biocombustível de soja na categoria de óleo de palma, tornando legalmente impossível que o produto chegue às bombas do bloco a partir de 2030. O lobby brasileiro tenta evitar essa possibilidade.“A União Europeia espera chegar a 50% de renováveis em sua matriz em 2050. O Brasil já cumpriu essa meta em 2025”, disse Lula, repetindo fala da véspera sobre a “trajetória pioneira” do país no setor nos anos 1970.“Hoje, na Feira de Hannover, vimos na prática a força do biocombustível brasileiro. Foi uma pena que o primeiro-ministro não pôde visitar o caminhão”, disse Lula, brincando com o fato de ter subido em um modelo fabricado no Brasil após os discursos iniciais dele e de seu anfitrião, Friedrich Merz, no pavilhão 12 da Hannover Messe.Um passeio dos dois pelo gigantesco complexo que abriga a feira, na região central da Alemanha, estava previsto na programação, mas não ocorreu. Lula chegou cerca de meia hora atrasado ao local. Merz agradeceu o empenho do presidente em preservar a Amazônia. “Respeitamos profundamente a forma como o senhor lida com esse valioso tesouro da humanidade.”Também agradeceu pelo papel desempenhado por Lula na COP30, em Belém, no ano passado, mas sem fazer referência a seu comentário polêmico sobre a cidade que viralizou nas redes sociais. “Estamos felizes por você estar aqui.”Merz se mostrou bastante inclinado em estudar o “interessante modelo do Brasil”. “Não deveríamos descartar tecnologias que vão se tornar relevantes daqui a 30 anos. Temos mais de um bilhão de veículos que continuarão rodando. Não vai dar para resolver isso só com carro elétrico.”Dentro das Consultas Intergovernamentais de Alto Nível, mecanismo que a Alemanha mantém com menos de dez países atualmente, o assunto, contudo, não alcançou a declaração final, apesar do engajamento de Merz. O conservador, porém, afirmou que os dois governos decidiram intensificar a busca de um acordo para evitar a bitributação entre os dois países.A questão se arrasta desde os anos 2000 e é um grande empecilho para empresas que trabalham nas duas economias, assim como para trabalhadores e estudantes expatriados.Merz também voltou a festejar a entrada em vigor do acordo UE-Mercosul, “em uma época de grandes mudanças geopolíticas e geoeconômicas”. Lula, como de hábito nesta viagem, foi mais enfático nas críticas à guerra no Irã protagonizada por EUA e Israel.Depois dos discursos, Lula causou um alvoroço sem precedentes, segundo os organizadores, entre expositores, visitantes e jornalistas ao dedicar paradas de minutos em alguns dos principais estandes do pavilhão brasileiro, que neste ano, por conta da homenagem, alcança a marca recorde de 140 empresas e startups.“O Brasil é um país que quer se transformar em uma economia rica. Nós cansamos de ser tratados como um país pobre.”


