Na mira do novo tarifaço imposto pelo governo Donald Trump, o Pix (sistema de pagamento instantâneo que revolucionou as transações financeiras no país e se tornou uma das soluções mais queridas entre os brasileiros) passou a ocupar o centro de uma disputa internacional que envolve quem controla os trilhos do dinheiro no mundo. Embora o embate tenha origem na guerra comercial com os Estados Unidos, a discussão também gira em torno de influência geopolítica e soberania digital e monetária.A disputa não é somente sobre intermediários financeiros, como as bandeiras de cartão de débito e crédito, e a eventualidade de perderem receita e mercado com a expansão de infraestruturas digitais públicas. É também sobre poder. Não que as bandeiras deixem de ser importantes, porque o uso de cartões até cresceu no Brasil com a expansão do Pix. Mas elas podem não ser mais imprescindíveis no futuro, e os americanos querem manter controle sobre os sistemas de pagamento pelo mundo porque isso lhes dá influência geopolítica.Decisões do governo Trump, por exemplo, abrangem casos em que sanções contra indivíduos e instituições incluem negar acesso aos canais bancários formais controlados pelos norte-americanos. Um exemplo recente é o caso de Francesca Albanese, relatora especial da ONU, que teve o acesso a sistemas bancários americanos restringido devido às críticas à política americana na Faixa de Gaza.É mais difícil fazer empresas não americanas cumprirem esse tipo de determinação. Usualmente, as leis precisam ser recepcionadas pelo sistema de justiça doméstico para terem validade. Já os arranjos de pagamento de empresas sediadas nos Estados Unidos, como Visa, Mastercard, Google e Apple, tendem a seguir decisões do Governo norte-americano.O conflito se encaixa no contexto monetário e geopolítico mais amplo. Na prática, a possibilidade de que países criem as próprias redes de pagamento e as conectem entre si reduz a capacidade de o Governo americano aplicar as regras de forma extraterritorial.


