Investigações que apuram um esquema de desvios de recursos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e possíveis fraudes financeiras envolvendo o Banco Master identificaram a transferência de ao menos R$ 1,5 milhão para igrejas evangélicas, segundo levantamento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). As movimentações são consideradas suspeitas e integram o material analisado pela CPI que investiga irregularidades no sistema previdenciário.
De acordo com os relatórios, os repasses envolvem lideranças religiosas, instituições religiosas e empresários ligados às operações sob investigação. As transações financeiras teriam ocorrido ao longo do período em que aposentados e pensionistas foram, supostamente, vítimas de desvios ilegais de recursos.
Igrejas citadas nas apurações
As movimentações suspeitas aparecem vinculadas a quatro igrejas evangélicas:
- Adoração Church, no Pará
- Assembleia de Deus Ministério do Renovo, no Maranhão
- Ministério Deus é Fiel Church (SeteChurch), em São Paulo
- Igreja Evangélica Campo de Ananote, também em São Paulo
Segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), há indícios de que algumas dessas instituições tenham sido utilizadas como mecanismo para ocultação ou lavagem de dinheiro, a partir de valores desviados de benefícios previdenciários.
Destaque para repasses individuais
Entre os casos analisados, a Adoração Church, liderada pelo pastor Heber Pereira Trigueiro, aparece após o Coaf identificar um repasse superior a R$ 366 mil. Já a Assembleia de Deus Ministério do Renovo, comandada pelo pastor Antônio Nunes da Silva, teria recebido R$ 511 mil da empresa ADS Soluções e Marketing Ltda.
A ADS foi criada em fevereiro de 2023 e, segundo os investigadores, prestaria serviços de marketing a três associações suspeitas de participação nos desvios de recursos do INSS.
Grupo “Golden Boys” entra no foco da investigação
Outro ponto central do inquérito envolve o grupo conhecido como Golden Boys, considerado estratégico para entender a relação entre igrejas e o suposto esquema de fraude previdenciária. O grupo é ligado ao Ministério Deus é Fiel Church, liderado pelo pastor Cesar Bellucci do Nascimento, que é réu em outra investigação que apura um possível esquema de pirâmide financeira.
As autoridades avaliam se a estrutura religiosa foi utilizada para dar aparência de legalidade às movimentações financeiras investigadas.
Ligação com líderes religiosos de projeção nacional
Entre os nomes citados no contexto das apurações está o líder religioso André Machado Valadão, que coordena a Igreja Lagoinha. A instituição teria ligação com a Clava Forte Bank, plataforma financeira que saiu do ar após o início da operação contra o Banco Master. Segundo os investigadores, a plataforma era utilizada para o recebimento de doações de fiéis.
Valadão é aliado político do ex-presidente Jair Bolsonaro e teria atuado em campanhas políticas, conforme apontam documentos analisados pela CPI. As investigações buscam esclarecer se houve uso indevido de estruturas religiosas e financeiras para fins ilícitos.
Investigações seguem em andamento
A CGU, o Coaf e a CPI reforçam que as apurações continuam e que os citados têm direito à ampla defesa e ao contraditório. Até o momento, não há condenações, apenas indícios que motivaram a abertura dos procedimentos investigativos.
O caso reacende o debate sobre fiscalização de entidades religiosas, transparência financeira e a proteção de recursos destinados a aposentados e pensionistas, considerados um dos grupos mais vulneráveis a fraudes no país.




