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“Até pouco tempo, Ciro dizia que eu era o melhor governador do Brasil”

O videocast Caráter recebeu para o seu quarto episódio o senador e ex-ministro da Educação, Camilo Santana (PT). Na entrevista, Camilo relembrou que, antes de se aliar à oposição no Ceará, o pré-candidato e ex-governador Ciro Gomes (PSDB) tinha alinhamento com o projeto da base, ao lado de seu irmão, o também senador Cid Gomes (PSB). No diálogo ao programa, o ex-ministro da Educação também fez um panorama sobre os projetos desenvolvidos pelo Ministério da Educação (MEC) e afirmou que a prioridade de seu partido é concluir o período eleitoral com as reeleições do presidente Lula (PT) e do governador Elmano de Freitas (PT).

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Caráter: Senador, qual é o seu caráter?
Camilo Santana: Eu acho que o ideal é ter palavra, ser uma pessoa justa e ter respeito às pessoas. Acho que isso é fundamental, principalmente na vida pública.

Caráter: Sua liderança é polêmica dentro do PT Ceará. Sua ex-correligionária Luizianne Lins, antes de deixar o partido, criticou o que chamou de falta de espaço dentro da legenda. A oposição critica o senhor com esse argumento. Como o senhor responde a essas críticas?
CS: A gente faz parte de um projeto que tem feito o Ceará avançar. Eu fui ministro da Educação e percorri o Brasil inteiro. É impressionante a imagem positiva que o Ceará tem no Brasil, principalmente pelos resultados da educação e pelo desenvolvimento econômico que o estado alcançou nas últimas décadas. É claro que há divergências dentro do nosso partido e entre os partidos aliados. Isso faz parte da democracia. A democracia é você ter visões diferentes, contanto que exista respeito. Eu nunca tive problema nenhum com ninguém do ponto de vista pessoal, nunca me viram falar mal ou caluniar ninguém. Eu ajo respeitando as pessoas e a população, porque o que interessa ao cidadão são os resultados das entregas, o que está melhorando a vida das pessoas.

Caráter: O senhor falou em dividir essa liderança, mas o senhor não está solitário nela. Como o senhor colocou, temos o senador Cid Gomes. Existe hoje uma disputa ou um desejo de controle de prefeituras entre o PT e o PSB no Ceará?
CS: É natural que todo partido queira crescer. O Cid está no PSB, e eu estou no PT. Isso acontece em todas as siglas, tanto em nível nacional quanto estadual. Mas, da minha parte, não há disputa absolutamente nenhuma. Eu sempre respeitei os nossos aliados. Nos 8 anos em que fui governador, sempre respeitei os prefeitos dos partidos aliados. Acho que cada um tem seus espaços. O importante é que a gente possa comungar e agregar naquilo que nós acreditamos para os avanços que o Ceará precisa ter.

Caráter: Talvez a palavra mais precisa não seja disputa, mas o controle político dessas prefeituras?
CS: Não vejo por esse lado, pelo menos da minha parte não. É claro que cada partido quer crescer, até porque o meu partido hoje tem o governador do Estado e a Prefeitura de Fortaleza, que é a maior capital governada pelo PT no Brasil. Então, acho que o espaço precisa ser compartilhado com os outros aliados. Ninguém governa sozinho. É importante ter aliados na eleição e, principalmente, para governar — seja o município, o estado ou o Brasil —, sem fugir dos nossos princípios.

Caráter: Existe objeção ao nome da atual vice-prefeita de Fortaleza, Gabriela Aguiar, pelo fato de que a saída dela geraria uma vacância na Prefeitura?
CS: Primeiro, não existe veto a nenhum nome, nem de mulheres, nem de homens. O que nós temos são os prazos que a Justiça Eleitoral determina para as convenções partidárias para oficializar as candidaturas de 2026. O que a gente tem como certeza agora é que o governador Elmano é o nosso candidato à reeleição e o presidente Lula é o nosso candidato à presidência. Eu, particularmente, defendo — sem veto a ninguém — que o senador Cid Gomes dispute uma das vagas ao Senado, cabendo ao PSB definir e discutir isso. E nós vamos, claro, discutir quem ocupará a outra vaga do Senado e quem será o candidato ou candidata a vice. Não há “caciques” nesse nosso projeto. As coisas precisam ser discutidas coletivamente para encontrarmos as pessoas que possam representar melhor esse projeto.

Caráter: Mas gerar uma vacância na Prefeitura de Fortaleza seria um problema político na sua visão?
CS: Não vejo como um problema impeditivo, porque existe a prerrogativa legal de o presidente da Câmara Municipal assumir quando o prefeito e o vice se afastam. Mas é claro que essa será uma decisão que vamos tomar em conjunto, e também passa por uma decisão pessoal dela, que é uma grande vice-prefeita, uma grande mulher, ex-deputada estadual e médica muito conceituada.

Caráter: Como reter no Ceará a mão de obra qualificada que será capacitada aqui, com a implantação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)?

CS: Eu tenho muito orgulho de ter feito parte desse período à frente do ministério. Deixo claro que foi um processo, primeiro, de reconstrução. Quando fui governador do Ceará, eu nunca era recebido no Ministério da Educação pelo governo passado. Para o estado receber recursos de obras de escolas, nós precisávamos entrar na Justiça porque eles não pagavam. Era um governo federal que não dialogava, que não respeitava o federalismo brasileiro e os estados e municípios eleitos democraticamente. O nosso primeiro momento no ministério foi de reconstrução orçamentária. Nós ampliamos significativamente o orçamento da Educação de 2022 para cá [..] O investimento brasileiro historicamente sempre se concentrou na região Sudeste, e acho que a gente precisa deslocar esse eixo também para o Nordeste […] ‘Como reter essa mão de obra?’ Isso se faz atraindo empresas de grande porte para o Ceará. O Ceará hoje está recebendo o maior investimento privado de sua história: estamos construindo aqui o maior Data Center da América Latina, um investimento bilionário […] É bom lembrar que os cabos de fibra óptica que trazem internet para o Brasil entram pelo mar na Praia do Futuro; somos o segundo ponto mais conectado do planeta. Nós não queremos só a passagem dos cabos, queremos trazer as empresas. Esse Data Center internacional vai exigir engenheiros de altíssima qualificação. Por isso, os cursos do ITA aqui no Ceará foram desenhados para não concorrer diretamente com os cursos de São Paulo, evitando disputas […].

Caráter: Há alguma ressalva ou restrição dentro do PT em relação ao nome do deputado federal Júnior Mano?
CS: De forma alguma, não tenho absolutamente nada contra o Júnior Mano, ele é um grande parlamentar que tem trabalhado muito junto a vários prefeitos no Ceará e tem sua importância na política cearense. Agora, sou muito sincero nas minhas posições. O Cid Gomes foi um grande governador por 8 anos, é senador da República e é um nome que pontua muito bem nas pesquisas. Pensando estrategicamente em uma eleição acirrada contra a oposição, a gente quer fortalecer o time com os nomes de maior densidade. Embora a decisão final seja do PSB, defendo que o candidato seja o próprio Cid.

Caráter: Recentemente, o senador Cid comentou que a relação de vocês já não é mais a mesma de 10 anos atrás. O que foi que mudou?
CS: É natural que o período em que passei no Ministério da Educação tenha exigido uma dedicação quase exclusiva ao Brasil. Eu me dediquei muito ao ministério, viajando pelo país inteiro, recebendo governadores, prefeitos e parlamentares de todas as regiões. Quando entro de cabeça em um projeto, coloco toda a minha energia nele. Esse distanciamento do dia a dia da política local acaba gerando um afastamento natural, não só com o Cid, mas com vários outros aliados aqui do Estado. Mas da minha parte não há nenhum problema; pelo contrário, tenho profunda admiração e o maior respeito pelo Cid Gomes e pela trajetória dele.

Caráter: Sobre as bancadas do PT na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal, quais são as metas do partido para 2026?
CS: O objetivo do PT é manter as bancadas atuais e, se possível, ampliar o número de deputados federais e estaduais, ajudando também os partidos da nossa federação, como o PCdoB e o PV, a fortalecerem suas bancadas. Mas a nossa grande prioridade política nesta eleição será a campanha do presidente Lula e do governador Elmano. Eu quero fazer esse debate de forma programática com o povo cearense, porque são dois projetos antagônicos e muito distintos que estão em curso no Brasil e no Ceará. De um lado, temos o time do Lula, do Camilo, do Elmano e do Cid. E do outro lado, a turma do Bolsonaro. Claro, que para mim a candidatura do Ciro é uma candidatura de incoerência, porque até pouco tempo ele dizia que o maior projeto e o melhor projeto era esse, que eu era governador, que eu era o melhor governador do Brasil, o projeto jamais poderia deixar de continuar. A população é inteligente e percebe esses movimentos. A oposição muitas vezes adota uma política baseada no ataque pessoal. Eu não entro em baixaria. Quando fere a minha honra, eu aciono a Justiça.

Caráter: A oposição fala de fechamento de fábrica de calçados…
CS: A oposição esconde que o nosso governo construiu galpões industriais e garantiu incentivos em municípios como Brejo Santo e Senador Pompeu, gerando empregos. Eles deixaram as obras da Transnordestina paradas por quatro anos; nós a retomamos com o presidente Lula, gerando 10 mil empregos, com previsão de entrega para o primeiro semestre de 2027. Nós construímos os grandes hospitais regionais de Sobral, Juazeiro do Norte, Quixeramobim e Limoeiro do Norte, e o Elmano está expandindo para Crateús, Iguatu e Baturité. Esse é o nosso modelo de entregas.

Caráter: Esse cenário de união das forças de direita pode ser chamado de “a oposição possível”, dado o tamanho do grupo político de vocês no Ceará?
CS: O Ceará teve a sorte de ter, ao longo das últimas décadas, governadores com responsabilidade fiscal, que cuidaram do dinheiro público e priorizaram a educação. A educação abre portas; sem ela, as oportunidades são escassas. […] A oposição deveria focar em apresentar propostas reais. Se criticam a segurança, qual é o plano deles? Nós contratamos 5.000 profissionais da segurança pública, expandimos o CPRAIO para municípios acima de 20 mil habitantes, montamos a maior frota de aeronaves policiais com visão noturna, investimos em inteligência e criamos o Centro Integrado de Segurança Pública. O crime organizado hoje é um desafio nacional e transfronteiriço; as facções atuam além das divisas dos estados. Eu tenho defendido no Senado a aprovação da PEC da Segurança Pública para criar o Susp [Sistema Único de Segurança Pública] na Constituição, dando ao governo federal o poder de coordenar as polícias civis, militares e federais de forma integrada. Precisamos também de leis penais mais rígidas e de maior celeridade da Justiça para acabar com a sensação de impunidade. Na administração penitenciária, nós criamos a secretaria específica, trouxemos o secretário Mauro Albuquerque, isolamos os líderes criminosos, tiramos os celulares dos presídios e acabamos com as regalias. O combate ao crime precisa estar acima de disputas politiqueiras de época de eleição.

Caráter: O entrevistado anterior, Capitão Wagner, sem saber quem seria, deixou a seguinte pergunta para o próximo convidado: “Você acha que a hegemonia de um mesmo grupo no poder há cerca de 20 anos no Ceará é boa para a democracia o não?”
CS: Primeiro, reforço que não considero uma hegemonia de grupo, mas uma continuidade de um projeto aprovado pela população. Fomos governados pelo Cid [pelo PSB], depois por mim [pelo PT] e agora pelo Elmano. São pessoas e dinâmicas diferentes. A resposta está na própria essência da democracia: quem escolhe o governante é o povo soberano, não é uma ditadura. Se o povo optou por dar continuidade a esse projeto, é porque reconhece os avanços na qualidade de vida e na educação.

Caráter: E qual será a sua pergunta em forma de café para o próximo?
CS: Vou deixar uma pergunta de interesse do Estado: qual a avaliação que o próximo entrevistado faz sobre a implantação do campus do ITA aqui no Ceará e quais serão os impactos econômicos e tecnológicos desse marco para o nosso futuro?

Caráter: Queríamos que o senhor nos dissesse um livro de sua predileção e uma música marcante.
CS: Sobre livros, um que li e que me marcou profundamente pela reflexão que traz sobre o mundo foi Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Recentemente, li também A Cabeça do Santo, da escritora cearense Socorro Acioli, que é fantástico.

Caráter: e a música
CS: Uma música que eu gosto muito, que fala muito do nosso Ceará, ‘terra da luz’, do Waldonys, que é um grande compositor, um grande artista, um grande amigo cearense.

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