Por Hyago Felix, Gabriela de Palhano e Kelly Hekally
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Articulador da tentativa de permanência do governador Elmano de Freitas (PT) no Palácio da Abolição, o senador Camilo Santana (PT) tem preferido atuar nos bastidores nos últimos meses em prol da articulação da campanha de seu correligionário local e do presidente Lula (PT), que objetiva chegar ao seu quarto mandato no Palácio do Planalto.
Ex-ministro da Educação, Camilo Santana visitou o jornal O Estado nesta quinta-feira (11) para mais uma entrevista do videocast Caráter. Após a gravação no estúdio do programa, o ex-governador do Estado concedeu uma exclusiva para as edições impressa e digital deste jornal.
No diálogo, Camilo Santana, entre outros temas, descreve o início de sua aproximação com Lula, fala dos riscos da desinformação para as eleições deste ano e critica Ciro Gomes, pré-candidato ao Governo do Estado pelo PSDB, e Roberto Cláudio, presidente do União Brasil Fortaleza. Ambos são seus ex-aliados.
“Quando vejo o Ciro falar do meu pai, isso é o que mais me angustia, porque ele sabe a história dele, que é uma pessoa que está com mais ou menos 90 anos de idade. Ele pode até falar de mim, até mentir em relação a mim, que tenho como me defender”, afirmou ao comentar falas de Ciro a seu pai Eudoro Santana, presidente do PSB Ceará.
Também ao O Estado, questionado sobre eventualmente ser o candidato de Lula em 2030, refutou que trabalhe com o projeto, mas respondeu que será uma “honra” caso seja convidado. Confira abaixo a íntegra.
O Estado – O presidente Lula tem uma deferência pessoal ao senhor. Como vocês se aproximaram?
Camilo Santana – Eu já tinha uma relação há algum tempo, mas não era uma relação [tão próxima]. Antes de ser presidente agora dessa última vez, ele ficou um final de semana na minha casa de praia em Icapuí. Mas claro que a gente construiu uma relação mais próxima agora como ministro. O presidente Lula é um apaixonado pela educação. A gente construiu uma relação de muita confiança. Eu sou uma pessoa muito sincera. Quando acho que uma coisa não está no caminho certo [eu aponto]. Geralmente, quando você está no poder, muitas pessoas vêm só para puxar o saco. Eu gosto de questionar. E você acaba ganhando confiança das pessoas por ser sincero. E eu passei a ter ainda mais admiração pelo presidente. É uma pessoa que governa para as pessoas que precisam, que enxerga qual é o papel do Estado. Claro que você tem que olhar para todos, mas, quando a gente olha para os ricos, os ricos têm um dinheiro para comprar um carro blindado, para se proteger, para pagar um bom plano de saúde […] O Brasil é um país muito desigual […] É importante fazer a obra, mas é mais importante que as pessoas possam viver dignamente. Se alimentar, ter acesso à escola, saúde.
OE – As pesquisas deste ano colocam o senador Flávio Bolsonaro [PT] muito bem posicionado. Vocês veem risco de a oposição ter êxito nas eleições?
CS – A gente tem que entender que tem um momento que as pessoas vão estar antenadas à política. No momento, as pessoas não estão preocupadas com a eleição, estão preocupadas em acordar cedo para o trabalho, pagar as contas, levar os meninos para o colégio […] Lula tem também sintonizado com a população com o novo Desenrola, para ver se diminui as dívidas da população brasileira, o apoio para os aplicativos, os entregadores de motos. A gente tem que estar sempre entendendo como é que está para poder governar. A gente não consegue resolver tudo, mas tem que saber quais são as prioridades. Vai ter um momento em que a população vai fazer uma reflexão e vai comparar. A população vai ter que comparar esse governo do presidente Lula e que foi o governo do Bolsonaro. O que o Bolsonaro fez para o Brasil nos 4 anos dele. É um governo que negou a vacina, negava a ciência, queria destruir as universidades, foi o pior orçamento da história do Brasil das universidades.
OE – Mas o senador Flávio Bolsonaro se apresenta com um discurso mais moderado que o do pai…
CS – Sim, mas não interessa. Ele representa esse projeto do pai dele. Nós vamos mostrar que queriam destruir o Mais Médicos, a Farmácia Popular, o Minha Casa, Minha Vida. Vamos ter o momento do debate, da discussão e de colocar isso para a população. O governo do presidente Lula teve que se desdobrar para recuperar o Brasil. A gente precisou reconstruir as políticas públicas. Se você for olhar a história do Brasil, todas as políticas públicas de inclusão, grande parte delas foi acontecendo no governo do Lula-Dilma. É o Prouni, o Fies, o Enem, o Minha Casa, Minha Vida, o Luz para Todos […] A nossa preocupação maior hoje é com as fake news e a inteligência artificial nessa eleição, que é uma prática muito grande da turma de lá. Anteontem, foi lançado o porta-voz do Lula, uma espécie de ferramenta do WhatsApp para a gente poder espalhar as boas notícias e as notícias verdadeiras.
OE – A presidência do TSE está com o ministro Nunes Marques e a vice com o ministro André Mendonça, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Há tranquilidade do PT sobre isonomia nas decisões eleitorais?
CS – Tanto a conduta do Nunes Marques quanto a conduta do André são muito firmes e respeitam a democracia. Claro que também não são só eles dois que fazem parte da corte, mas espero que eles respeitem, pelo menos é o comportamento que eles têm tido independente de quem indicou. Espero que a gente possa ter uma eleição tranquila, democrática, respeitosa.
OE – O PL se tornou o maior partido do Senado e tem tentado construir candidaturas que vão enfrentar o STF. Como o senhor enxerga a composição do Senado hoje e a composição que pode chegar ao Senado no próximo ano?
CS – É visível uma estratégia da oposição de tentar ter a maioria no Senado na próxima legislatura, e é uma estratégia nossa de tentar construir um maior número. Eu defendo que toda a transparência, o controle que possa existir nos órgãos, tanto do Judiciário, como do Executivo, como do Legislativo, são importantes. Esse código de conduta do Supremo Tribunal Federal é importante. Agora é preciso respeitar as instituições. Nós precisamos ter ferramentas e instrumentos de maior transparência e maior controle ético. E não estou falando só do Supremo, falo em todas as instituições, em todos os poderes do Brasil. E claro que da mesma forma que eles estão trabalhando a estratégia de ampliar o número de senadores da oposição, nós estamos trabalhando para ampliar o número de senadores. Nós vamos trabalhar para eleger o presidente Lula, vamos trabalhar para reeleger o governador Elmano, vamos trabalhar para reeleger os nossos dois senadores. Por isso quando eu defendo aqui o senador Cid é porque ele já tem uma história.
OE – O fim da 6×1 está totalmente parado no Senado. O recesso está batendo à porta. O senhor tem participado da articulação para tentar acelerar a pauta?
CS – A gente tem três projetos importantes no Senado para serem votados. Um é a PEC da Segurança, que já está há um tempo parada. O outro é o projeto de lei que vai discutir os minerais críticos e as terras raras, que foi um acordo, inclusive quando o presidente Lula esteve com o presidente Trump lá nos Estados Unidos. Claro que nós temos outros projetos, mas esses três são muito importantes para o país. Aquele problema da votação do Messias gerou uma certa indisposição, um certo atrito entre o Executivo e o presidente do Senado. O presidente do Senado deseja tentar limpar esse meio de campo. Eu acredito que nos próximos dias o presidente Lula vai sentar com o presidente do Senado e tentar construir uma relação institucional, preservar, porque o que está em jogo é o país. Incomodou aquilo ao presidente, porque, na realidade, a prerrogativa, a indicação do membro supremo, como historicamente foi, é do presidente. Cabe ao Senado apenas avaliar se ele cumpre os requisitos para essa missão, para esse cargo, reputação ilibada, conhecimento jurídico. Mas não: o Senado resolveu fazer um embate político. É muito mais uma decisão política do que cumprir os requisitos legais que o Senado exige para o cargo do Supremo Tribunal Federal. Então, isso deixou um pouco o presidente chateado. Eu tenho procurado distensionar isso, tenho boa relação com o Alcolumbre. Ontem [quarta] mesmo, eu estive na residência oficial do presidente do Senado. Eu espero, a partir da conversa com o presidente, que ele vá colocar as matérias para serem votadas no Senado. Ele está aguardando essa conversa com o presidente. Eu espero que possa acontecer.
OE – Está mais para acontecer ou não acontecer?
CS – Mais para acontecer. Quando acontece esse tipo de coisa, a gente tem que deixar a poeira baixar um pouquinho para depois a gente restabelecer. Mas o Alcolumbre gosta muito do presidente. Somos aliados no Amapá, apoiamos o governador que é do partido dele […] Ele vota no presidente Lula, tem tudo para a gente manter a boa relação e garantir que esses projetos importantes, principalmente o fim da escala 6 por 1, possam ser aprovados, porque é o grande anseio da população. Acredito que a gente vai votar antes do recesso essa pauta. A briga é para ver quem é o relator. Todo mundo quer ser relator dessa matéria.
OE – Há algum movimento histórico, digamos, contra os Ferreira Gomes envolvendo sua dinâmica política?
CS – Não vai existir na história do Ceará até a história recente um governador que foi mais leal e entregou o governo de volta a eles. Acabei meu governo com 86% de aprovação. A quem eu entreguei o governo? A Izolda [Cela], que era do partido dele de Sobral, da cozinha deles. Eu acho que nós fazemos parte de um projeto. Não vai ter nenhum governador nesse país que não queira fazer o seu sucessor do seu partido ou da sua confiança. Onde é que existiu isso, gente? O que existiu claramente, o próprio Cid [Gomes] reafirmou, é que nós tínhamos acordado que a candidata seria Izolda, uma grande mulher, uma extraordinária vice-governadora, a pessoa que foi responsável por todo esse processo, iniciou esse processo da educação. Estava acordado com Ciro Gomes e com Cid que ela seria e eu sairia para ser candidato ao Senado. Que ela assumiria e iria para a reeleição. E depois que eu saí praticamente essa decisão foi descumprida. O Cid ficou na serra porque ele não queria brigar com o irmão e nem queria descumprir o que tinha sido combinado […] Essa obsessão do Roberto Cláudio e do Ciro, que o candidato tinha que ser o Roberto Cláudio sem combinar antes. Nada contra: fui aliado do Roberto Cláudio, ajudei muito ele como prefeito, porém existia um problema que o PT não apoiava o Roberto Cláudio. Se o Roberto Cláudio tinha intenção de se eleger governador, a primeira coisa que ele tinha que fazer era construir uma relação com o PT, que era a coisa mais fácil do mundo. Sabiam que existia esse problema. A definição da candidatura de Izolda foi acordada entre nós porque o PT aceitava que era o melhor nome, ela já assumiu o cargo, já estava no cargo, que só ia para uma reeleição, só mais quatro anos. Meus pais estão fora da política há muito tempo. Ele apenas aceitou ser presidente do PSB, e é um presidente muito mais de honra. Porque o meu pai está com 89 anos. Teve até um acidente agora. Ele foi muito mais ser presidente porque eu pedi.
OE – Em casa, quem é sua maior referência política?
CS – Meu pai. Eu era criança, nunca esqueci meu pai sendo preso na época da ditadura. Meu pai passou quase dois meses sendo torturado. Na época, morava no Cariri e a minha mãe estava grávida da minha irmã. Muitos morreram naquela época lutando pela democracia […] Meu pai sempre dizia que na vida tem os espectadores e os construtores. Os espectadores são os que assistem. Mas há aqueles que querem ajudar a mudar a vida, a construir um mundo melhor. Então, eu fiz essa opção. Tenho ele como referência de uma pessoa muito séria, muito correta. Por isso, quando vejo o Ciro falar do meu pai, isso é o que eu mais me angustia, porque ele sabe a história dele, que é uma pessoa que está com mais ou menos 90 anos de idade. É algo que eu lamento, tenho até pena. Acho que o nível da política não pode ser esse nível. Ele pode até falar de mim, até mentir em relação a mim, que tenho como me defender […] Lamento a gente ter chegado a esse nível, e espero que o povo cearense tenha a oportunidade de saber distinguir a boa política dessa política rasteira.
OE – O presidente Lula sempre fala da vida dele, de como conseguiu mudar o seu próprio destino. A gente vive um tempo em que os valores mudaram. O senhor acha que esse tipo de discurso ainda toca as pessoas?
CS – O tempo que nós estamos vivendo não é o mesmo momento da época do do Lula 1. Muita gente não viu o Lula 1, não tinha nem nascido. É natural que o cidadão e a cidadã queiram cada vez mais. Hoje o cidadão [pensa] ‘eu quero comer no iFood, ter um celular, ter uma TV com Netflix’. Isso começa, muitas vezes, a exigir um poder aquisitivo maior e às vezes não consegue. Então, começam essas frustrações [e vêm esses pensamentos] quero ser autônomo, quero ter o meu próprio negócio. A gente precisa entender um pouco esse sentimento dessa nova geração, que não é a mesma geração. E isso é um fenômeno que não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Essa polarização não é só aqui no Brasil […] O efeito que as redes sociais e a internet têm nas pessoas. O Brasil é o segundo país do mundo com o maior tempo médio do cidadão e da cidadã numa tela. Uma das ações mais importantes que acho que nós fizemos foi restringir o uso de celular na escola.
OE – O ex-ministro Fernando Haddad é um excelente quadro dentro do partido, mas sofre resistências. O senhor é liderança com resultados como governador, ministro e resultados potenciais como senador. Há, minimamente, uma construção do seu nome para ser um possível substituto do presidente Lula?
CS – Eu já cheguei aonde eu jamais imaginaria chegar. Sou grato, agradeço a Deus. Sou uma pessoa realizada. Juro. Sou do Interior do Estado. Quando eu estava no ministério, olhava aquela sala e falava ‘Poxa, para mim, lá do Cariri, chegar a ser ministro da Educação’. O meu objetivo é garantir o bem do Brasil, que o presidente Lula seja reeleito, em defesa da democracia, em defesa da soberania. O presidente Lula foi o único presidente que teve coragem de enfrentar o Trump e acabou sendo respeitado pelo presidente [norte-americano]. Ele é um exemplo, um estadista que retomou o diálogo internacional. O meu objetivo é ajudar a reeleger o presidente e o governador Elmano, porque sei da seriedade do coração dele, um cara trabalhador, um cara sério. Não tenho esse projeto [de ser presidente], eu quero ajudar. E, onde eu puder ajudar, eu vou ajudar.
OE – Mas se o senhor chegar lá será uma uma felicidade para o senhor, não é?
CS – Claro que se o presidente reeleito nos convidar, com muita honra, porque eu acredito nele, acredito no governo, acredito principalmente na educação. Faz parte como um princípio de vida da gente. Vamos trabalhar.


