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Cid: “[Ciro] se juntou com bolsonaristas, mas me recuso a acreditar que ele seja”

O jornal O Estado realizou nesta sexta-feira (22) a primeira entrevista de seu mais novo produto: o vlogcast Caráter. Apresentado pelas jornalistas Gabriela de Palhano e Kelly Hekally, o programa inaugural, que vai ao ar na íntegra neste fim de semana no YouTube do veículo, recebeu o senador Cid Gomes (PSB).

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Ex-governador do Estado e precursor do projeto político em curso no Palácio da Abolição desde 2006, o parlamentar conversou por cerca de 50 minutos com as jornalistas e falou sobre visões pessoais, infância, o setor de indústria no Ceará, bem como sobre eleições e sua relação com correligionários e o governador Elmano de Freitas (PT).

“A nível estadual, teve uma [eleição] de que me afastei, mas todas as outras que eu participei eu ganhei. Olha, eu acho que a primeira vez que eu votei para governador foi no Tasso Jereissati, ganhei. Votei no Ciro, ganhei. Votei no Tasso, ganhei. Votei no Tasso, ganhei. Votei no Lúcio Alcântara, ganhei. Votei em mim mesmo, ganhei. Votei em mim, ganhei. Votei no Camilo, ganhei. Votei no Camilo, ganhei”, apostou.

Após a gravação do Caráter, Cid Gomes conversou com exclusividade com as jornalistas para uma segunda entrevista, a ser veiculada na próxima segunda-feira (25) para a versão impressa, cuja versão digital, em PDF, ficará disponibilizada, e para o portal do O Estado.

O Estado – Há 20 anos, o senhor vencia as eleições como governador. Fez sua reeleição, desbancou a reeleição do PSDB no período, fez sua reeleição, conseguiu emplacar o seu candidato à época e é extremamente parceiro do governador Elmano. Mas ninguém passa a vida inteira no poder. Eu lhe pergunto: numa eleição tão polarizada como essa, o senhor tem receio de que essa hegemonia se esvaia de alguma forma das suas mãos?
Cid Gomes – Bom, primeiro eu não acho que seja uma hegemonia pessoal. Não tenho vaidade, sinceramente, nem de ser o grande precursor das mudanças no Ceará. Eu não tenho nenhum problema em reconhecer méritos, inclusive de pessoas que não são meus aliados. O grande mérito da mudança definitiva no paradigma da política no Ceará foi o Tasso. E eu estive ao lado dele, se a gente for juntar isso aí, vão mais 20 anos. Então, reconheço isso. Acho que o Ceará depois deu umas escorregadas, e eu não fui candidato de oposição negando e disse desconhecendo os avanços que o Ceará tinha tido recentemente, mas o que eu dizia era que o Ceará precisava acelerar um pouco mais e que era importante uma gestão que engrenasse uma terceira marcha. Eu usei essa expressão que é muito comum. Você dar mais velocidade, mais ritmo ao crescimento. E, bom, eu vinha de uma experiência de gestão em Sobral, no município, e não há nada mais rico do que a gestão do município. É lá onde as coisas realmente acontecem. Fora a segurança, que é uma coisa que extrapola a competência dos municípios, educação, saúde, urbanismo, interação com essa área de estímulo econômico, geração de emprego, o município aqui e você vê as coisas acontecendo. O Estado é uma máquina maior, mas a riqueza da gestão do Sobral me permitiu trazer para o Estado um papel de liderar os demais municípios. Então, a gente implantou uma série de ações que tornaram parceiros próximos, independente de relação partidária ou até mesmo simpatia política, todos os municípios do Ceará […] Então, eu acho que isso é que é, e obviamente o avanço dessas coisas, é que é um marco dessa hegemonia, que eu não considero [hegemonia]. Eu sou a favor sempre da renovação. Eu fui e tive o privilégio de ser governador duas vezes, eu jamais terei a pretensão de ser governador de novo. O que a gente deve fazer é dar oportunidade. Camilo foi 8 anos e teve aí o período da Izolda [Cela] […] e o Elmano dá sequência a esse projeto. Então, eu digo sempre, já meio como vacina, estou onde sempre estive e estou defendendo o projeto que eu ajudei, não foi a fundar, a criar, a dar, ter um ritmo mais acelerado.

OE – Falando das prefeituras e dessas articulações pelo Interior, é indubitável a relevância do Estado do Ceará nas eleições, até nacionais. O senhor na janela partidária foi um furacão. O senhor meio já respondeu, mas eu vou insistir: o senhor está fazendo as bases para 2030?
Cid – Olha, eu lhe juro, ninguém está imune e é da natureza humana você ter vaidades. Mas eu, como eu policio o meu caráter, eu me policio, todo dia é uma tentação, todo dia na vida da gente é uma tentação. Tem sempre assim um atalhozinho, tem sempre uma oferta de um caminho mais fácil, mas eu me policio para que eu siga aquele caminho que é o correto, que é o sério, que é o ético, que é o do trabalho, que é da dedicação e é isso que eu faço. Então, na política, eu estou nela por gosto, me dá prazer. Se o meu telefone não toca, alguém me procurando, eu fico preocupado. Será que está acontecendo alguma coisa? As pessoas estão me esquecendo? Eu não quero já jamais ser esquecido. O que eu quero é que a minha memória fique pros meus netos, pros meus bisnetos, e memória como de alguém que fez o bem e é isso que eu procuro fazer. Na política, você tem um milhão de formas de agir. Você pode agir no Parlamento, como secretário de Estado, coisa que eu nunca fui, ministro, até ocupei um período brevemente. Você pode ser um parlamentar, que eu já fui aqui na Assembleia, e sou, estou, senador, e você pode fazer na militância partidária, que é a tarefa a qual eu estou me dedicando de corpo e alma. E faço isso, repito, com o maior prazer. E o meu orgulho, né, é que esse esforço tenha consequência, tenha resultado, tenha retorno. Então, fico feliz quando o PSB alcançou nas eleições municipais um resultado de ser o primeiro partido em prefeitos eleitos no Estado do Ceará. Foram 65 cinco prefeitos eleitos. E de lá para cá, da eleição que não tem dois anos ainda, nós já tivemos a adesão de mais oito. Então hoje nós estamos com 73 prefeitos no estado do Ceará. Eu fico feliz de que o PSB é o partido que tem a maior representação na Assembleia Legislativa. E no que depender de mim, essa representação deve aumentar. Vamos nos esforçar muito para que a gente possa eleger 13, 14 deputados estaduais agora nessa próxima eleição, e a gente se consolidar ou se afirmar como a maior bancada na Assembleia. E tem também diariamente o desafio de fazer uma boa bancada de deputados federais. Isso é que vai dar para o Ceará uma representação forte para o Ceará, para o nosso partido, para a política do Estado do Ceará. Eu tenho formação de engenharia. Eu defino sempre metas e vou trabalhar para executar essas metas. A minha meta de deputados federais do PSB é que sejam eleitos 5 deputados federais.

OE – Quando a gente fala de indústria, a gente vê realmente um investimento muito grande. A mão de obra do Data Center, ela não tem como a curto prazo a previsão de ser uma mão de obra local, precisa formar pessoas específicas da área da tecnologia, enfim. Quanto tempo a gente como cearense pode esperar que esses investimentos deem fruto, digamos assim, para além da mão de obra operária, indo rumo a uma construção de inteligência tecnológica local também?
Cid – Eu acho que nessas coisas não existe uma bala de prata, que é aquela que mata o vampiro. Não existe uma bala só ou um alvo só que você consiga resolver todos os problemas. Se a gente for ver a economia do Ceará, nós temos um desafio histórico. Eu posso estar desatualizado, mas não é muito diferente disso. 4,4% da população do Brasil. O que a gente vai ver do percentual de formação do PIB [Produto Interno Bruto] cearense, no total do PIB brasileiro, é 2,1%, 2,2%. E isso já é uma mudança recente, porque não tinha antes de mim nunca chegado a 2%. A tradução disso é que o cearense médio vive com a metade da renda que o brasileiro médio vive, e o Brasil não é um país de primeiro mundo. Então, nós já estamos num país considerado em desenvolvimento, que tem uma renda per capita abaixo da renda dos países considerados de primeiro mundo. Isso é um desafio permanente, e a gente tem que investir em todas as frentes da economia. Mas assim, pior do que o emprego de operário é não ter emprego. Então, já se disse no passado que o emprego na indústria calçadista não tem relevância. É muito cômodo, a pessoa está bem de vida aqui atrás do num gabinete de ar-condicionado, criticando, mas foi fundamental para o Ceará, e isso é ao longo longo dos anos, ter conseguido atrair para cá, uma indústria calçadista que coloca o Ceará entre os três maiores produtores de calçados do Brasil e de exportação, acho que somos o primeiro. Ou estamos aí disputando o primeiro lugar, numa atividade que é intensiva, geradora de mão de obra. Então, é fundamental que a gente faça isso. Busca um emprego qualquer que seja ele. Para mim não tem, é óbvio que se você conseguir o emprego de um salário de 20.000 é melhor, mas pior é o desemprego. Repito: todas as frentes tem que ser, a gente tem que atuar é, na geração de indústria para a demanda de mão de obra que existe nas áreas urbanas do Ceará, e o Ceará mudou profundamente o seu percentual de pessoas que moram na zona rural e moram na zona urbana e não tem outra atividade que gere tanta mão-de-obra do que a indústria principalmente a indústria de mão de obra intensiva […] A exploração do urânio em São Quitéria, por exemplo, é uma coisa que eu tenho lutado pessoalmente. 

OE – O presidente da Assembleia, Romeu Aldigueri, falou que agora está se formando a chapa majoritária. A preço de hoje, qual partido ganha essa vice?
Cid Gomes – Sinceramente, eu não posso aconselhar e defender o que eu não penso. Dia desses eu estive com o governador Elmano, que é quem deve liderar o processo, que disse que estava achando que deveria precipitar esse processo. Ele é quem lidera, ele é quem resolve. Eu, o que eu fiz sempre foi deixar para a última hora. Você vê a política, não gosto nem de falar essa frase, mas ela é tão dinâmica, que há 15 dias atrás você tinha um empate técnico a nível nacional entre o Lula e o [Flávio] Bolsonaro. Então, formar uma chapa agora, eu sei lá o que é que pode acontecer daqui até o prazo, que você pode até formar agora, mas a oficialização só pode ser feita a partir do dia 20 de julho. Julho, nós estamos ainda em maio […] Numa quinzena, a gente está vendo o destroço que aconteceu a nível nacional. O que era o último colocado lá, um candidato aí do partido que eu nunca nem tinha ouvido falar, Missão, já está em terceiro colocado. Dizem que muita coisa pode acontecer. A influência da política nacional sempre foi muito grande aqui no Ceará […] Então, assim, o governador é quem lidera, ele é quem diz a data. E eu estou às ordens. O meu partido será um partido aliado, isso não tem nenhuma voz dissonante no meu partido, e queremos contribuir para a reeleição do governador.

OE – Só pegar o gancho, senador. No sábado, o seu irmão Ciro Gomes [PSDB] fez o evento lançando a pré-candidatura e ele chegou a citar nomes, de uma maneira muito discreta, pedindo votos… Capitão Wagner, ao PL. O senhor acha que o governador sinalizar que pode adiantar tem relação com os nomes que foram expostos no sábado?
Cid Gomes – Eu sinceramente acho o seguinte: hoje no Brasil, o modelo partidário está completamente na contramão do que é o razoável. Partidos, para mim, devem surgir das bases e vão se formando nos municípios, se integram nos estados e vão representar a nível de país. No Brasil é o contrário. Você tem lá meia dúzia de caciques que alguns deles não têm voto nenhum, não tem representação nenhuma e comandam cartórios partidários. Infelizmente, a regra é essa. Tem exceções, mas a regra é essa. Cartórios partidários controlados a partir de Brasília. E a lógica deles é a seguinte: ‘Estou me lixando para vereador, para prefeito, para deputado estadual, para governador, para senador, o que eu quero é deputado federal’, porque o fundo partidário que financia bilhões de reais que são distribuídos anualmente como fundo partidário. Eu não estou criticando isso, estou criticando a lógica de percepção ou de compartilhamento desses recursos. É pela quantidade de deputado federal. Do fundo partidário é a quantidade de deputado federal. Então, estou aqui botando um ‘venenozinho’. Quando eu vi uma foto do Capitão Wagner, apontando para o […] Alcides [Fernandes – PL], eu vi que está ali a dobradinha. Tá ali a dobradinha. Agora, aí depois o Ciro diz que quer que o Roberto Cláudio seja o vice. Sim. Todas essas pessoas, não todas, mas o Wagner e o Roberto Cláudio, foram apresentados à liderança do União Brasil como candidatos a deputado federal. Será que o União Brasil vai concordar que eles vão disputar outros cargos, que não aqueles cargos que dão grana?

OE – Conversamos com o Capitão Wagner depois do evento, e ele disse que havia certa indecisão da própria nacional de lançar o Roberto como vice. Ele sinalizou exatamente para cargos de federais…
Cid Gomes – A prioridade é deputado federal e não é por outra coisa não, é por dinheiro, o vil metal que ergue e destrói coisas velhas.

OE – Lá em Sobral, quando brincava, o senhor tolerava perder para os irmãos?
Cid Gomes – Eu sou péssimo, péssimo [de aceitar perder], mas sei que estou errado. Eu nunca gostei de perder, nunca gostei […]

OE – O senhor já perdeu?
Cid Gomes – Já. Já perdi. Eu perdi quando fui candidato, falando de política, lato sensu, duas vezes ao grêmio do meu colégio, lá em Sobral. Perdi as duas. Perdi as duas. Na primeira, eu perdi e fui me preparar para a segunda. Muito bom. Perdi de novo. Muito bom. Mas enfim, eu não morri não. E nem a  gente deve morrer. Eu não me conformo, não fico feliz, não vou mentir, por isso é que eu luto para ganhar. 

OE – O senhor vai ganhar neste ano aqui no estado do Ceará?
Cid Gomes – A nível estadual, teve uma [eleição] de que me afastei, mas todas as outras que eu participei eu ganhei. Olha, eu acho que a primeira vez que eu votei para governador foi no Tasso Jereissati, ganhei. Votei no Ciro, ganhei. Votei no Tasso, ganhei. Votei no Tasso, ganhei. Votei no Lúcio Alcântara, ganhei. Votei em mim mesmo, ganhei. Votei em mim, ganhei. Votei no Camilo, ganhei. Votei no Camilo, ganhei. Eu votei no Roberto Cláudio, por incrível que possa parecer, eu já disse isso para o Elmano. Eu anunciei que não que não iria manifestar voto em governador, porque eu queria estar à disposição em condições de fazer uma coligação imaginando que tivesse o segundo turno, uma reaproximação. Infelizmente, os caminhos foram diferentes, a despeito de todo o meu interesse em tentar fazer uma recomposição. Mas não faltou recado, não faltou iniciativa minha de tentar conversar com A, com B e com C e com D e com R e com tudo mais que você possa imaginar. Mas, assim, ficou uma coisa meio meio assim doentia. Eu lamento muito, lamento.

OE – O senhor acha que tem um pouco a ver com polarização como um todo?
Cid Gomes – Acho que não. Eu me recuso a acreditar que o Ciro vá ser Bolsonaro. Me recuso a acreditar. Ele se juntou com bolsonaristas, mas me recuso a acreditar que ele seja.

OE – Independente de quem é o 13 aqui nessas eleições, o senhor vai votar 13 ou só se for o governador Elmano?
Cid – Eu me sinto no numa obrigação, porque eu fiquei 3 anos e meio, a pedido de todos os nossos amigos que eram do PDT e que vieram para o PSB, todos sem exceção de nenhum dos que compõem a Assembleia, me pediram para eu fazer uma reaproximação. E eu fiz. Como é que eu fico, e 3 anos e meio e de uma hora para outra eu vou mudar?

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