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Editorial | A epidemia dos “vereadores federais” e o esvaziamento da política local

Há um fenômeno que vem se espalhando silenciosamente pela política municipal brasileira e que merece reflexão cuidadosa: a transformação de vereadores — eleitos para cuidar dos problemas do bairro, da rua e da cidade — em protagonistas de debates nacionais, muitas vezes alheios às urgências locais. É a chamada “epidemia dos vereadores federais”.

O mandato de vereador é, por natureza, o mais próximo do cidadão. É no plenário da Câmara Municipal que se discutem transporte público, saúde básica, educação infantil, iluminação, saneamento e planejamento urbano. No entanto, cresce o número de parlamentares municipais que dedicam boa parte de seu tempo e de sua retórica a temas macro, disputas ideológicas nacionais e conflitos que extrapolam — e muito — o alcance de suas atribuições legais.

Não se trata, é importante frisar, de proibir opiniões ou cercear posicionamentos políticos. O debate de ideias é inerente à democracia. O problema não é ideológico; é de foco. Quando o vereador fala mais para a câmera do que para o plenário, mais para as redes sociais do que para a população que o elegeu, algo se desloca do eixo central da representação política.

As redes sociais reconfiguraram o jogo. O plenário deixou de ser apenas espaço de deliberação e passou a funcionar como cenário. O discurso já não termina na ata da sessão, mas continua nos cortes editados, nos stories e nos feeds. A lógica é clara: visibilidade gera engajamento, engajamento gera relevância, relevância se converte em capital político. Nesse ambiente, a polarização não surge como efeito colateral — muitas vezes, ela é estratégia.

O resultado é um mandato municipal que, pouco a pouco, assume funções que não lhe cabem. O vereador fala como comentarista político, age como analista de conjuntura nacional e se posiciona como ator permanente de um debate de alcance federal. Enquanto isso, demandas concretas da cidade ficam em segundo plano, relegadas ao silêncio administrativo.

Nada disso é ilegal. Nada disso é formalmente proibido. Mas é profundamente sintomático. Revela uma política local capturada pela lógica da performance, onde representar continua sendo o verbo oficial, mas performar, em muitos casos, torna-se o verbo praticado.

O grande debate, talvez, não esteja no conteúdo dos discursos, mas na sua origem e no seu destino. De onde falam esses vereadores? Para quem, de fato, falam? Para os moradores do município ou para uma plateia digital difusa, muitas vezes distante da realidade local?

Resgatar a centralidade da política municipal é um desafio urgente. Cidades não se governam com likes, nem se resolvem problemas estruturais com discursos importados do debate nacional. A democracia local exige presença, escuta e ação concreta. Caso contrário, a epidemia segue avançando — silenciosa, visível e cada vez mais normalizada.

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