À medida que o calendário eleitoral se aproxima, movimentos antes silenciosos passam a ganhar holofotes e discursos administrativos assumem contornos claramente políticos. Em Maranguape, o recente pedido do secretário de Educação de Maracanaú, George Valentim, ao governador Elmano de Freitas para a implantação de uma escola cívico-militar no município reacendeu o debate sobre oportunismo político e uso estratégico da máquina pública em períodos pré-eleitorais.
O pleito, formalizado por meio de ofício e amplamente divulgado nas redes sociais, gerou questionamentos sobre a real motivação do gesto. Embora a iniciativa possa ser apresentada como benéfica à educação local, o contexto político em que ela surge levanta dúvidas. Valentim, que já foi secretário de Educação e prefeito de Maranguape, atua hoje em um campo político de oposição ao governo estadual — posição que ele próprio reforçou ao declarar apoio a Ciro Gomes em disputas anteriores.
A contradição salta aos olhos: ao mesmo tempo em que se posiciona na oposição, o secretário recorre ao governo para um projeto de forte apelo simbólico e eleitoral. Para críticos, a iniciativa parece menos um planejamento educacional estruturado e mais uma tentativa de reposicionamento político, especialmente em um cenário de reorganização de forças locais.
Nos bastidores, a leitura é de que o movimento busca consolidar Valentim como liderança política vinculada ao grupo da deputada Fernanda Pessoa em Maranguape, cidade administrada pelo prefeito Chico. A missão, no entanto, não se mostra simples. O histórico recente pesa: na última eleição, o grupo político liderado por Valentim obteve desempenho fraco, amargando baixa votação e ficando atrás de adversários, mesmo contando com nomes já conhecidos do eleitorado, como um ex-prefeito e um deputado estadual.
Outro ponto que alimenta críticas é o timing da ação. Em vésperas de um novo pleito, a publicização de ofícios e pedidos institucionais tende a ser interpretada como capital político antecipado, especialmente quando não há debate prévio com a comunidade local ou apresentação de estudos técnicos que sustentem a proposta. A educação, nesse contexto, corre o risco de ser instrumentalizada como moeda eleitoral.
O episódio revela uma prática recorrente na política brasileira: a transformação de demandas públicas legítimas em palanque, com discursos moldados mais pela conveniência do momento do que por coerência programática. Ao pedir um benefício para Maranguape, Valentim também expõe a fragilidade de um discurso oposicionista que, quando conveniente, busca abrigo exatamente no governo que critica.
Se janeiro já oferece uma amostra do tom que deve marcar os próximos meses, a expectativa é de uma campanha intensa, com disputas narrativas e gestos calculados para ocupar espaço no debate público. Cabe ao eleitor separar o que é projeto consistente do que é oportunismo travestido de boa intenção — e cobrar coerência de quem pretende liderar.




