O conteúdo da delação de Mauro Cid segue em sigilo no STF. Por causa disso, ainda não é possível compreender a importância dos relatos do colaborador para a investigação do plano bolsonarista de golpe de Estado.
Até aqui, Cid colheu benefícios para si e para seus familiares metidos nas diferentes apurações da Polícia Federal porque decidiu delatar. O que veio a público, nos últimos dias, no entanto, mostra que ele escolhia o que revelar e personagens a serem protegidos. A diferença entre um de seus depoimentos sobre o general da reserva Walter Braga Netto, dado em março deste ano, e o último relato, prestado a Alexandre de Moraes, no início do mês, é escandalosa.
Ciente de toda a articulação criminosa em torno de um plano de assassinato de Lula, Geraldo Alckmin e o próprio ministro do STF, Cid, segundo investigadores, omitiu tais fatos. A postura mudou quando a própria PF conseguiu resgatar dados apagados da memória do celular do tenente-coronel.
Se dependesse de Cid, Braga Netto, hoje preso por tentar atrapalhar as investigações e metido até o pescoço em graves esquemas em investigação no STF, ainda seria pintado como um democrata.
Ao falar da reunião em que se tramou o plano de assassinato, por exemplo, Cid disse que o encontro ocorreu porque os kids pretos estavam em Brasília por assuntos pessoais e queriam “dar um abraço no general Braga Netto”.
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Por essa visão, os potenciais executores do plano de assassinato seriam meros turistas bajuladores de figuras bolsonaristas. Em vez de detalhar questões financeiras para compra de armas e estratégias para os atentados na tal reunião, Cid disse que a conversa foi para “discutir sobre a conjuntura nacional do país”. Coisa de estadista.
Percebendo que a PF havia descoberto bem mais do que ele revelou, Cid refrescou bem sua memória. Narrou um encontro entre um dos kids pretos e Braga Netto no qual dinheiro vivo foi entregue numa sacola de vinho, dentro do Palácio do Planalto ou do Alvorada, para financiar o plano de assassinato.
Não está claro se Cid tentou proteger Braga Netto e outros militares metidos na trama golpista. O que é possível esperar, segundo um investigador, é que esse acerto de contas chegue para o delator na conclusão do julgamento, quando sua delação será analisada para referendo dos benefícios concedidos e os serviços efetivamente prestados à Justiça.




